A pressão de pragas como lagartas, percevejos e pulgões estão entre as principais ameaças à produtividade de culturas como soja, milho e algodão.Estimativas conduzidas por pesquisadores da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) apontam que insetos-praga causam perda média anual de 7,7% na produção agrícola nacional, o equivalente a cerca de 25 milhões de toneladas de alimentos, fibras e biocombustíveis. 

O impacto econômico é agravado pela crescente resistência de pragas , exigindo novas estratégias para manter a rentabilidade e a sustentabilidade das lavouras. 

A ecologia química revela que plantas atacadas por herbívoros emitem compostos voláteis capazes de atrair inimigos naturais, como parasitoides e predadores, ampliando o arsenal do manejo integrado de pragas (MIP).  

O entendimento e a aplicação desses mecanismos, especialmente dos cairomônios no MIP, têm potencial para transformar práticas agrícolas e promover o equilíbrio biológico na lavoura. 

Neste conteúdo, serão abordados os conceitos fundamentais de cairomônios, a diferenciação em relação a outros semioquímicos, os principais compostos envolvidos, exemplos de aplicação prática e recomendações para ampliar o uso dessa ferramenta no campo. 

Ficha rápida: cairomônios no MIP 

O que são Compostos emitidos por um organismo que beneficiam o receptor, de outra espécie, em detrimento do emissor 
Diferença de feromônios Feromônios: comunicação entre indivíduos da mesma espécie. Cairomônios: beneficiam apenas o receptor. Sinomônios: beneficiam emissor e receptor, como os voláteis de plantas atacadas que atraem inimigos naturais 
HIPVs Voláteis de plantas induzidos por herbivoria emitidos por plantas sob ataque de herbívoros 
Principais compostos (E)-β-ocimeno, linalol e DMNT (terpenos voláteis), MeSA (salicilato de metila) e MeJA (jasmonato de metila) 
Quem responde aos sinais Parasitoides de ovos (Trichogramma) e de lagartas (Cotesia); predadores como larvas de crisopídeos (Chrysoperla) e ácaros fitoseídeos 
Estratégia prática principal Empurra-puxa (push-pull): plantas repelentes (Desmodium) nas entrelinhas da cultura e plantas atrativas (capim-elefante ou braquiária) na bordadura 
Origem da estratégia Desenvolvida na África oriental contra brocas-do-colmo em milho; adaptada depois para a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), inclusive em versão voltada a regiões secas 
Situação no Brasil Em fase de pesquisa; a diversificação vegetal com plantas de cobertura e consórcios é um caminho em estudo para favorecer inimigos naturais 

Principais pontos 

  • Cairomônios beneficiam quem recebe o sinal (o inimigo natural), diferente dos feromônios, que comunicam indivíduos da mesma espécie. 
  • HIPVs são voláteis específicos emitidos por plantas atacadas, variando conforme o herbívoro e o tecido danificado. 
  • Parasitoidesde ovos, como Trichogramma spp., e de lagartas, como Cotesia spp.,, e predadores como larvas de crisopídeos (Chrysoperla spp.), usam esses sinais para localizar suas presas com precisão. 
  • A estratégia empurra-puxa, que combina plantas repelentes nas entrelinhas e plantas atrativas na bordadura, reduziu em mais de 80% a infestação de lagarta-do-cartucho em lavouras de milho na África oriental.Bioinsumos como Bacillus spp. e Trichoderma spp. podem intensificar a emissão de HIPVs, tornando a planta mais atrativa para inimigos naturais. 

O papel dos cairomônios na comunicação entre plantas, pragas e inimigos naturais 

Os cairomônios são compostos químicos emitidos por um organismo que beneficiam o receptor, de outra espécie, em detrimento do emissor. No MIP (manejo integrado de pragas), um exemplo clássico são as substâncias presentes em escamas, secreções e feromônios das pragas, utilizadas por parasitoides para localizar ovos e lagartas. 

Esses compostos integram a classe dos semioquímicos, que reúne os feromônios (comunicação intraespecífica) e os aleloquímicos (comunicação interespecífica). Os aleloquímicos se dividem em cairomônios, alomônios e sinomônios. Os voláteis liberados por plantas atacadas, que atraem parasitoides e predadores, são classificados como sinomônios, porque beneficiam tanto a planta quanto o inimigo natural.  

Na literatura aplicada, os dois grupos costumam ser estudados em conjunto, por atuarem de forma complementar na busca dos inimigos naturais por suas presas. 

Decodificando o vocabulário químico entre insetos e vegetais 

A comunicação química é central na interação entre plantas, pragas e inimigos naturais. Enquanto os feromônios são usados para comunicação entre indivíduos da mesma espécie, os cairomônios atuam entre espécies diferentes, beneficiando o receptor em detrimento do emissor.  

Um subgrupo importante são os HIPVs (herbivore-induced plant volatiles, ou voláteis de plantas induzidos por herbivoria), compostos voláteis emitidos especificamente por plantas sob ataque de herbívoros. Esses HIPVs carregam informações detalhadas sobre o tipo de dano e o herbívoro envolvido, permitindo que inimigos naturais localizem suas presas com precisão. 

Motivações evolutivas para a emissão de voláteis de defesa pelas plantas 

Por serem organismos sésseis, as plantas tiveram, ao longo da evolução, mecanismos de defesa química favorecidos pela seleção natural, entre eles a emissão de voláteis capazes de atrair inimigos naturais das pragas. 

Parasitoides do gênero Trichogramma e Cotesia, além de predadores como larvas de crisopídeos (Chrysoperla spp.), utilizam esses sinais para encontrar ovos, lagartas e outros estágios de pragas.  

A emissão dos HIPVs é altamente específica, variando conforme o herbívoro e o tecido atacado, tornando o recrutamento de inimigos naturais mais direcionado. 

Compostos voláteis emitidos por plantas e sua função ecológica 

A diversidade de compostos emitidos por plantas danificadas é grande, mas alguns grupos se destacam pela capacidade na atração de inimigos naturais. 

HIPVs: os principais mensageiros voláteis identificados 

Entre os HIPVs mais estudados estão os terpenos voláteis, como (E)-β-ocimeno, linalol e DMNT ( (E)-4,8-dimetil-1,3,7-nonatrieno), presentes em culturas como milho e algodão.  

Compostos como e MeSA (salicilato de metila) (soja, algodão) também desempenha papel relevante, atraindo predadores e parasitoides. 

O etileno, hormônio vegetal gasoso, modula as respostas de defesa e pode intensificar a emissão de voláteis induzidos por herbivoria, enquanto o MeJA (jasmonato de metila) pode ativar genes de defesa em plantas vizinhas. 

Estratégias de localização: como predadores e parasitoides interpretam sinais químicos 

Parasitoides de ovos, como Trichogramma spp., e de lagartas, como Cotesia spp., utilizam tanto compostos liberados pela praga (cairomônios) quanto voláteis da planta atacada (sinomônios) para localizar seus hospedeiros. Predadores, como larvas de crisopídeos (Chrysoperla spp.) , também respondem a esses voláteis, aumentando o sucesso na busca por presas. 

A especificidade dos HIPVs permite que diferentes inimigos naturais sejam atraídos conforme o tipo de herbívoro presente, otimizando o controle biológico.  

Estudos mostram que alguns parasitoides aprendem a associar determinados HIPVs ao hospedeiro após experiências prévias, tornando o sistema ainda mais dinâmico. 

Comunicação entre plantas: um sistema de alerta coletivo 

Além de atrair inimigos naturais, os voláteis emitidos por plantas atacadas podem servir como alerta para plantas vizinhas, promovendo uma defesa coletiva. 

Redes de sinalização: como plantas vizinhas recebem e respondem aos alertas 

Quando uma planta atacada emite voláteis como o MeJA e os chamados voláteis de folhas verdes, plantas próximas podem detectá-los e preparar suas defesas antes do ataque, fenômeno conhecido como priming.  

Esse processo foi descrito em espécies como milho, tabaco e algodão, mas sua contribuição para a redução de pragas em condições de lavoura ainda é objeto de pesquisa. 

Otimizando o ambiente agrícola para amplificar a emissão de HIPVs 

A adoção de plantas companheiras que emitem voláteis constitutivos e faixas de vegetação nativa são estratégias que aumentam a presença de inimigos naturais na lavoura, uma recomendação que também aparece nas boas práticas de controle biológico conservativo no MIP. 

Lavoura de milho com pendões floridos e árvores ao fundo, em dia ensolarado.

Essas práticas criam um ambiente mais atrativo e funcional para parasitoides e predadores, reforçando o efeito dos sinais químicos no MIP e reduzindo a pressão de pragas. 

Aplicações práticas: estratégia e integração com biológicos 

A compreensão dos cairomônios e dos HIPVs abriu caminho para o desenvolvimento de estratégias inovadoras no manejo integrado de pragas. 

Estratégia de repelência e atração no manejo de pragas 

A estratégia empurra-puxa (push-pull) foi desenvolvida na África oriental para o controle de brocas-do-colmo em lavouras de milho e, posteriormente, adaptada para o manejo da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), após a chegada da praga ao continente. 

O sistema combina dois componentes. Nas entrelinhas da cultura, são cultivadas espécies que repelem as mariposas-praga e desestimulam a postura de ovos, como as do gênero Desmodium — é o componente de repelência, que afasta a praga da cultura principal. Na bordadura, entram espécies que atraem essas mariposas para fora da área cultivada, como o capim-elefante (Cenchrus purpureus) — o componente de atração. 

Em regiões de menor disponibilidade hídrica, a versão adaptada do sistema substitui essas espécies por materiais tolerantes à seca: Desmodium intortum nas entrelinhas e braquiária cultivar Mulato II na bordadura. 

Além de reduzir a infestação na cultura principal, o arranjo favorece a atuação de inimigos naturais, já que os voláteis liberados pelas plantas companheiras também atraem parasitoides de lagartas. 

Sinergia entre bioinsumos e compostos voláteis para manejo sustentável 

Microrganismos benéficos, como Bacillus spp. e Trichoderma spp., podem induzir resistência sistêmica nas plantas e, em alguns sistemas estudados, alterar a emissão de voláteis de forma a torná-las mais atrativas para inimigos naturais.  

A resposta varia conforme a cepa, a cultura e o herbívoro envolvido. Fungos micorrízicos também podem modificar a emissão de voláteis e a resposta da planta ao ataque de herbívoros. 

Resultados de campo e perspectivas para o manejo integrado 

Estudos em diferentes sistemas de cultivo indicam que a manipulação de sinais químicos pode contribuir para o controle biológico e para a redução da necessidade de aplicações de inseticidas. 

A estratégia push-pull adaptada ao clima, por exemplo, reduziu em 82,7% o número médio de lagartas de Spodoptera frugiperda por planta e em 86,7% o dano às plantas, com produtividade de milho 2,7 vezes maior, em avaliação conduzida em lavouras de 250 produtores do Quênia, de Uganda e da Tanzânia. 

No Brasil, os resultados ainda são preliminares, mas indicam potencial para integração dessas práticas em sistemas de produção diversificados, especialmente quando associadas ao uso de bioinsumos e à manutenção de áreas de vegetação nativa. 

Recomendações práticas para adoção de estratégias baseadas em cairomônios 

  • Identificar as principais pragas e inimigos naturais presentes na lavoura. 
  • Manter ou introduzir plantas companheiras e bordaduras para atrair parasitoides e predadores. 
  • Integrar o uso de bioinsumos que podem modificar emissão de HIPVs. 
  • Avaliar a viabilidade da estratégia push-pull conforme o sistema de produção. 
  • Monitorar a resposta dos inimigos naturais e ajustar as práticas conforme necessário. 

A adoção dessas estratégias deve ser acompanhada por técnicos especializados e baseada em monitoramento constante, visando maximizar os benefícios e a sustentabilidade do sistema produtivo. 

O avanço no entendimento dos cairomônios no MIP e dos mecanismos de comunicação química entre plantas, pragas e inimigos naturais abre novas possibilidades para o manejo sustentável de pragas.  

A integração dessas ferramentas com práticas agroecológicas e biológicas representa um caminho promissor para aumentar a produtividade, a rentabilidade e preservar o equilíbrio ambiental nas lavouras brasileiras. 

A Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável. 

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Perguntas frequentes 

1. O que são cairomônios? 

São compostos químicos liberados por um organismo que beneficiam outro, de espécie diferente — no caso das plantas atacadas, voláteis que ajudam parasitoides e predadores a localizar a praga. 

2. Qual a diferença entre cairomônios e feromônios? 

Feromônios comunicam indivíduos da mesma espécie (por exemplo, entre insetos). Cairomônios comunicam espécies diferentes, beneficiando quem recebe o sinal. 

3. O que são HIPVs? 

Herbivore-induced plant volatiles: voláteis emitidos especificamente por plantas sob ataque de herbívoros, com composição que varia conforme o herbívoro e o tecido atacado. 

4. O que é a estratégia empurra-puxa (push-pull)? 

É um arranjo de cultivo que combina dois componentes: plantas que repelem a praga, cultivadas nas entrelinhas da cultura principal, como as do gênero Desmodium, e plantas que a atraem, cultivadas na bordadura, como o capim-elefante. O resultado é a redução da pressão de pragas na cultura de interesse e a maior presença de inimigos naturais na área. 

5. Bioinsumos podem aumentar a emissão de cairomônios pela planta? 

Em alguns casos. Bacillus spp. e Trichoderma spp. podem induzir resistência sistêmica e, em determinados sistemas estudados, alterar a emissão de voláteis, tornando a planta mais atrativa para parasitoides e predadores. A resposta varia conforme a cepa, a cultura e a praga. 

6. Essa estratégia já é usada no Brasil? 

No Brasil, a adaptação da estratégia push-pull ainda depende de pesquisa. A diversificação vegetal por meio de consórcios e plantas de cobertura, como crotalárias, feijão-de-porco e lablabe, já estudada para outras finalidades agronômicas, é um caminho com potencial para favorecer inimigos naturais em lavouras de milho e soja.