A gomose dos citros representa uma das principais ameaças à longevidade e produtividade dos pomares brasileiros, especialmente em regiões de clima úmido e solos suscetíveis ao encharcamento.  

Em casos severos, a doença pode levar à morte de plantas adultas, com impacto direto na produção e na rentabilidade dos citricultores. 

A doença, causada por oomicetos do gênero Phytophthora, manifesta-se de forma insidiosa, dificultando o diagnóstico precoce e favorecendo a disseminação em áreas mal manejadas. O risco é agravado por práticas inadequadas de plantio, escolha de porta-enxertos suscetíveis e ausência de monitoramento sistemático. 

Neste conteúdo, serão abordados os principais sintomas, agentes causais, fatores que favorecem a ocorrência da gomose dos citros e as estratégias de manejo preventivo, integrando práticas culturais, químicas e biológicas. 

Entendendo a gomose dos citros: agente causal, epidemiologia e fatores de risco 

A gomose dos citros é causada predominantemente por espécies do gênero Phytophthora, especialmente Phytophthora nicotianae (sin. P. parasitica) e Phytophthora citrophthora.  

Diferentemente dos fungos verdadeiros, esses patógenos pertencem ao grupo dos oomicetos, organismos filogeneticamente mais próximos das algas pardas e das diatomáceas do que dos fungos.  

A doença está amplamente distribuída nas principais regiões citrícolas do Brasil, com maior incidência em áreas de solos argilosos, mal drenados e sujeitos a encharcamento. 

O risco aumenta em períodos de chuvas intensas, quando disseminação da doençaé favorecida pela presença de água livre no solo. 

Além das condições ambientais, fatores de manejo como enxertia mal posicionada (muito próxima ao solo), uso de porta-enxertos suscetíveis (como limão-cravo) e plantio de mudas contaminadas contribuem para a introdução e disseminação do patógeno nos pomares. 

Como a gomose compromete a produtividade e a saúde das plantas 

Phytophthora spp. infecta a planta principalmente através de ferimentos no colo e raízes, promovendo necrose dos tecidos corticais e exsudação de goma característica.  

O avanço da necrose pode circundar o tronco, interrompendo o fluxo de seiva e levando ao declínio progressivo da copa, amarelecimento foliar, queda prematura de frutos e, em casos severos, à morte da planta.  

O impacto produtivo é significativo, pois a doença reduz a longevidade do pomar e compromete a produção de frutos de qualidade, além de aumentar custos com replantio e manejo corretivo. 

Estratégias integradas para o manejo da gomose dos citros 

O controle da gomose dos citros exige abordagem integrada, combinando práticas culturais, uso de biológicos e aplicação criteriosa de fungicidas , dentro de um programa mais amplo de manejo integrado de doenças em citros. 

Práticas culturais: a primeira linha de defesa contra a gomose 

A prevenção começa com o correto preparo do solo, priorizando áreas com boa drenagem e evitando o plantio em locais com histórico de encharcamento.A exposição do colo da planta deve ser mantida, evitando o acúmulo de solo ou matéria orgânica junto ao tronco, o que reduz o risco de infecção. 

A escolha do porta-enxerto é outro pilar do manejo preventivo. Porta-enxertos como Poncirus trifoliata (trifoliata) e citrumelo ‘Swingle‘ são classificados como resistentes à gomose dos citros, enquanto o limoeiro ‘Cravo’, muito usado no Brasil, é suscetível à doença. O ponto de enxertia deve ser mantido acima do nível do solo, evitando contato direto com água e solo contaminado. 

No pomar estabelecido, a irrigação por gotejamento , com emissores afastados do tronco, é preferível à aspersão, pois minimiza o molhamento do colo.  

Capinas mecânicas próximas ao tronco devem ser evitadas para não causar ferimentos, que servem de porta de entrada para o patógeno. A atenção à integridade dos tecidos da planta também é um princípio do manejo integrado de pragas da citricultura. O monitoramento periódico do colo das plantas, intensificado no período chuvoso, permite a detecção precoce de sintomas e intervenção rápida. 

Sintomas de gomose dos citros: tronco com escurecimento na base, casca rompida com exsudação de goma, lesão exposta no lenho e planta com desfolha e frutos secos no pomar

Trichoderma spp.: aliado biológico no manejo preventivo da gomose 

O uso de agentes biológicos, como Trichoderma harzianum e Trichoderma asperellum, tem se destacado como ferramenta complementar no manejo preventivo da gomose dos citros.  

Esses microrganismos colonizam a rizosfera e atuam por competição por espaço e nutrientes, além de outros mecanismos como antibiose, produção de enzimas que degradam a parede celular do oomiceto e indução de resistência na planta. 

A aplicação de Trichoderma spp. apresenta melhores resultados quando realizada preventivamente, por rega dirigida na cova ou no sulco de plantio e reaplicações no colo das plantas, conforme a bula de produtos registrados para o alvo.  

O uso combinado com práticas culturais adequadas amplia o efeito supressivo sobre Phytophthora spp., reduzindo a pressão da doença no pomar. 

Fungicidas para oomicetos: critérios técnicos de escolha  

O manejo químico da gomose dos citros deve ser direcionado para produtos registrados para a cultura. Entre os ingredientes ativos disponíveis, o fosetil-alumínio apresenta ação sistêmica com translocação ascendente e descendente, o que permite sua aplicação por pulverização foliar para proteção do tronco e das raízes.  

O uso de fungicidas deve seguir as recomendações técnicas, respeitando doses, intervalos de aplicação e período de carência conforme registro no MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária).  

É importante ressaltar que fungicidas do grupo dos triazóis, amplamente utilizados contra fungos verdadeiros, não apresentam ação sobre Phytophthora spp., pois atuam na inibição da biossíntese de ergosterol, componente da membrana celular dos fungos que os oomicetos não produzem. 

A rotação de ingredientes ativos e a integração com biológicos são estratégias recomendáveis para evitar o desenvolvimento de resistência e manter a sustentabilidade do manejo. 

Benefícios do manejo integrado na citricultura 

A adoção de práticas culturais adequadas, associada ao uso preventivo de Trichoderma spp. e aplicação criteriosa de fungicidas, tende a reduzir a incidência da gomose dos citros em pomares comerciais.  

A combinação dessas estratégias contribui para prolongar a vida útil do pomar, reduzir custos com replantio e manter a produtividade em níveis economicamente viáveis. 

Além disso, o manejo integrado contribui para a sustentabilidade do sistema produtivoe favorece o equilíbrio biológico do solo. 

Orientações técnicas para o controle efetivo da gomose dos citros 

  • Corrigir a drenagem do solo antes do plantio, evitando áreas com histórico de encharcamento. 
  • Utilizar porta-enxertos resistentes e manter o ponto de enxertia acima do solo. 
  • Realizar aplicações preventivas de Trichoderma spp. na cova ou no sulco de plantio, com reaplicações no colo das plantas conforme a bula do produto registrado. 
  • Adotar irrigação por gotejamento e evitar ferimentos no tronco durante capinas. 
  • Monitorar periodicamente o colo das plantas, com atenção redobrada na primavera e no verão, para detecção precoce de sintomas. 
  • Aplicar fungicidas registrados para a gomose em citros, conforme recomendação técnica, respeitando doses, intervalos de aplicação e período de carência. 
  • Integrar práticas culturais, biológicas e químicas para um manejo mais consistente e sustentável. 

A gomose dos citros é uma doença de manejo complexo, mas a integração de práticas culturais, biológicos e fungicidaspermite reduzir significativamente seu impacto.  

O sucesso do controle depende da prevenção, do monitoramento constante e da adoção de tecnologias alinhadas às recomendações técnicas. 

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Perguntas frequentes 

1. O que causa a gomose dos citros? 

É causada principalmente por oomicetos do gênero Phytophthora, especialmente Phytophthora nicotianae (sin. P. parasitica) e Phytophthora citrophthora — organismos filogeneticamente mais próximos das algas pardas e das diatomáceas do que dos fungos verdadeiros. 

2. Quais os sintomas da gomose dos citros? 

Exsudação de goma no colo da planta, necrose da casca, amarelecimento foliar, queda prematura de frutos e, em casos severos, morte da planta. 

3. Quais porta-enxertos são resistentes à gomose? 

Porta-enxertos como Poncirus trifoliata (trifoliata) e citrumelo ‘Swingle’ são classificados como resistentes à gomose dos citros, enquanto o limoeiro ‘Cravo’, muito usado no Brasil, é suscetível à doença. 

4. O Trichoderma spp. sozinho controla a gomose dos citros? 

Não. O Trichoderma spp. traz resultados mais consistentes quando aplicado preventivamente, mas o manejo integrado combina práticas culturais, biológicos e fungicidas. 

5. Por que parte dos fungicidas convencionais não funcionam contra a gomose? 

Porque Phytophthora é um oomiceto, não um fungo verdadeiro. Os triazóis, por exemplo, inibem a síntese de ergosterol, componente da membrana celular dos fungos que os oomicetos não produzem. Por isso, o controle químico deve priorizar ingredientes ativos registrados para oomicetos. 

6. Quais fungicidas têm ação documentada contra a gomose? 

Fungicidas registrados para oomicetos na cultura, como o fosetil-alumínio, que apresenta ação sistêmica e estimula mecanismos de defesa da planta. A consulta ao registro no Agrofit é recomendável antes de qualquer aplicação.