Diante de infestações de percevejos na lavoura de soja, o primeiro passo não é a escolha do inseticida, e sim a identificação das espécies presentes no talhão. Cada uma apresenta comportamento, época de ocorrência e resposta ao manejo diferentes. 

Neste conteúdo, você vai aprender a reconhecer as principais espécies, entender os danos que elas causam e montar um programa de monitoramento e controle integrado. 

Ficha rápida: percevejos da soja 

Espécies principais Três: E. heros, N. viridula e P. guildinii 
Espécie secundária de destaque D. melacanthus (relevante no sistema soja-milho) 
Ferramenta de monitoramento Pano-de-batida  
Nível de ação (grãos) 2 percevejos adultos (ou ninfas com mais de 0,5 cm) por metro de fileira 
Nível de ação (sementes) 1 percevejo adulto por metro de fileira  
Período crítico R3 a R6 ( do início da formação das vagens ao final do enchimento de grãos) 
Controle biológico Parasitoide de ovos Telenomus podisi e fungo Beauveria bassiana 

Principais pontos 

  • Não existe uma única espécie: o complexo reúne três percevejos principais (E. heros, N. viridula e P. guildinii) e espécies secundárias, como o D. melacanthus, cada um com comportamento e época de ocorrência diferentes. 
  • O nível de ação muda conforme o destino da lavoura: 2 percevejos adultos (ou ninfas com mais de 0,5 cm) por metro para grãos, mas apenas 1 por metro para sementes, um padrão bem mais rigoroso. 
  • Piezodorus guildinii, apesar de menor, causa dano desproporcional por indivíduo 
  • O período mais crítico de controle vai de R3 a R6, do início da formação das vagens ao final do enchimento de grãos. 
  • Metamidofós está banido no Brasil desde 2012 e não deve ser considerado como opção de controle. 

Quais são as espécies de percevejos que atacam a soja no Brasil 

Antes de falar em controle, é preciso saber com qual inimigo se está lidando. As espécies mais relevantes no Brasil têm biologia, época de ataque e suscetibilidade a inseticidas diferentes.  

Por isso, essa identificação muda completamente a estratégia de manejo. 

Euschistus heros: o percevejo-marrom 

O Euschistus heros é a espécie mais abundante nas lavouras de soja do Brasil, incluindo as do Cerrado. 

Apresenta coloração marrom-escura e dois prolongamentos laterais do pronoto em forma de espinhos, característica que facilita a identificação em campo. 

Sua migração costuma partir de hospedeiros alternativos logo no início do florescimento da soja. Por isso, é muito importante realizar o monitoramento antecipado.  

Outro ponto importante é o comportamento na entressafra: os adultos permanecem em oligopausa (estado de dormência) sob restos culturais e palhada, o que permite a sobrevivência de uma safra para outra. 

Nezara viridula: o percevejo-verde 

O Nezara viridula apresenta coloração totalmente verde e mede de 12 mm a 15 mm na fase adulta. A espécie é historicamente mais frequente em regiões de clima mais ameno, como o Sul do Brasil.  

Assim como as demais espécies principais, concentra o dano na fase de desenvolvimento de vagens e enchimento de grãos. 

Percevejo verde sobre broto de planta em close

Piezodorus guildinii: o percevejo-verde-pequeno 

Menor que o percevejo-verde , o Piezodorus guildinii mede cerca de 10 mm na fase adulta. Apresenta coloração verde-amarelada, com uma faixa transversal marrom-avermelhada no pronoto, próxima à cabeça. 

Apesar do tamanho reduzido, a espécie causa dano desproporcional: estudos indicam maior perda por indivíduo em comparação com outras espécies de percevejos, associada à ação das enzimas salivares sobre as sementes. 

Outro ponto de atenção é que ela apresenta menor suscetibilidade documentada a alguns grupos de inseticidas, o que exige cuidado redobrado no manejo. 

Diceraeus melacanthus: o percevejo-barriga-verde 

O Diceraeus melacanthus apresenta coloração castanha no dorso, abdome esverdeado na face ventral e espinhos do pronoto escuros.  

Na soja, é considerado praga secundária: a população aumenta no final do ciclo da cultura (R7 a R8), fase em que usualmente não causa injúrias relevantes. Após a colheita, abriga-se na palhada e ataca as plântulas do milho semeado em sucessão, o que torna a espécie especialmente relevante em sistemas soja-milho. 

No milho, a alimentação próxima ao colo das plântulas pode causar necrose foliar, encharutamento, perfilhamento e redução do estande, com danos mais intensos em períodos de estiagem. 

Comparativo rápido entre as espécies 

Espécie Identificação do adulto Ponto de atenção 
Euschistus heros (percevejo-marrom) Marrom-escuro, com dois prolongamentos laterais do pronoto em forma de espinhos Espécie mais abundante; sobrevive à entressafra sob restos culturais; populações com menor suscetibilidade a organofosforados documentadas 
Nezara viridula (percevejo-verde) Totalmente verde; de 12 mm a 15 mm Historicamente mais frequente em regiões de clima mais ameno, como o Sul 
Piezodorus guildinii (percevejo-verde-pequeno) Verde-amarelado, com faixa transversal marrom-avermelhada no pronoto; cerca de 10 mm Maior dano por indivíduo às sementes 
Diceraeus melacanthus (percevejo-barriga-verde) Dorso castanho e abdome esverdeado na face ventral; cerca de 10,5 mm Praga secundária na soja, com aumento populacional em R7 a R8; ataca plântulas de milho em sucessão 

Quais danos os percevejos causam na soja 

Os percevejos afetam a lavoura de duas formas distintas: um dano direto sobre o grão em formação e um dano indireto, ligado à transmissão de patógenos e a alterações fisiológicas na planta. 

Dano direto nos grãos 

O percevejo introduz seu estilete entre os lóculos da vagem para se alimentar da semente ainda em formação.  

Esse processo gera dois problemas típicos. O primeiro é o grão picado, que fica com uma mancha escura no ponto de alimentação e perde qualidade comercial.  

O segundo é o grão com enchimento incompleto, resultando em redução de peso. 

Outro efeito importante é a retenção foliar:plantas atacadas podem permanecer com folhas e hastes verdes na época da colheita, o que dificulta a operação. 

Dano indireto: transmissão de patógenos 

Durante a alimentação, os percevejos podem introduzir microrganismos nas sementes em formação.  

O principal exemplo é a levedura Nematospora coryli, associada à mancha-de-levedura, que deprecia a qualidade dos grãos colhidos. 

Como monitorar os percevejos com pano-de-batida 

A identificação da espécie precisa ser acompanhada de um monitoramento estruturado, que indique o momento adequado de intervenção. O pano-de-batida é a ferramenta mais utilizada para isso, e a forma como é aplicado interfere diretamente na qualidade da decisão. 

Técnica correta do pano-de-batida 

A técnica consiste em usar um pano branco de 1 metro de comprimento, preso a duas varas, posicionado na entrelinha da soja. Em seguida, sacode-se energicamente a fileira de plantas sobre o pano, contando os percevejos (ninfas e adultos) que caem sobre ele.  

Essa amostragem deve ser repetida em 6, 8 ou 10 pontos, conforme o talhão tenha até 10 ha, de 11 a 30 ha ou de 31 a 100 ha, respectivamente, calculando-se depois a média de percevejos por metro linear. 

É recomendável realizar amostragens semanais a partir do início da fase reprodutiva, intensificando o acompanhamento no período crítico. 

Nível de ação: quando intervir 

Segundo a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Soja, a intervenção é indicada quando a média amostrada atinge 2 percevejos adultos (ou ninfas com mais de 0,5 cm) por metro de fileira em lavouras destinadas a grãos.  

Em lavouras de produção de sementes, esse patamar cai para apenas 1 percevejo adulto por metro, já que a qualidade fisiológica da semente é bem mais sensível ao ataque.  

O período mais crítico para o controle vai de R3 a R6, ou seja, do início da formação das vagens ao final do enchimento de grãos. 

Antes do estádio R3, os percevejos adultos costumam causar menor impacto. Isso acontece porque a planta ainda tem capacidade de compensar parte do dano sofrido. 

Como montar o programa de controle 

Um programa de controle integrado combina inseticidas bem escolhidos, uso estratégico de biológicos e práticas culturais. Juntas, essas ferramentas reduzem a pressão da praga antes mesmo de ela chegar à lavoura. 

Inseticidas químicos: grupos e seletividade 

Há inseticidas de diferentes grupos químicos registrados para percevejos na soja, como organofosforados, piretroides e neonicotinoides, estes dois últimos frequentemente em misturas prontas que associam ação de choque e ação sistêmica.  

A escolha deve considerar o registro para a cultura e para a praga no Agrofit (Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários), do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária), e o histórico de resistência da região. 

O metamidofós, historicamente utilizado entre os organofosforados, teve o uso proibido no Brasil a partir de 2012 pela RDC (Resolução da Diretoria Colegiada) nº 1/2011 da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), por razões toxicológicas, e não deve ser considerado opção de manejo. 

Um ponto de atenção é o E. heros, que apresenta populações com menor suscetibilidade a organofosforados documentadas no Brasil. Por isso, é recomendável avaliar o resultado da aplicação e alternar modos de ação, conforme a classificação do IRAC (Comitê de Ação à Resistência a Inseticidas), para reduzir a seleção de populações resistentes. 

Biológicos no manejo integrado 

Há produtos à base do fungo Beauveria bassiana com registro para percevejos, como E. heros e D. melacanthus. O fungo age por contato, infectando o inseto por meio da cutícula, e sua ação é favorecida por alta umidade e temperatura amena, condições que devem ser observadas no momento da aplicação. 

Outro recurso do controle biológico é o parasitoide de ovos Telenomus podisi, que tem preferência pelas massas de ovos de E. heros. As liberações são mais indicadas no início da colonização da lavoura, antes que a população atinja o nível de ação. 

A integração entre biológicos e químicos segue a leitura do monitoramento: o controle químico é indicado quando a população atinge o nível de ação. 

Práticas culturais que reduzem a pressão 

Algumas práticas culturais influenciam a pressão de percevejos sobre a lavoura antes mesmo de qualquer aplicação: 

  • A época de semeadura interfere na intensidade do ataque: lavouras semeadas mais tarde, sobretudo quando próximas a áreas já colhidas, tendem a receber maior migração de percevejos e exigem monitoramento mais intenso. A definição da época deve respeitar o ZARC (Zoneamento Agrícola de Risco Climático) e o calendário de semeadura da região. 
  • Em sistemas de sucessão soja-milho, o uso de cultivares superprecoces semeadas cada vez mais cedo favorece o aumento das populações de percevejos ao longo do sistema, especialmente do percevejo-barriga-verde, o que reforça a importância do monitoramento também na cultura seguinte. 
  • O manejo de plantas daninhas hospedeiras, como a trapoeraba, e de plantas voluntárias de soja e milho (tiguera) reduz as fontes de alimento e abrigo do percevejo-barriga-verde na entressafra. 
  • Como a infestação costuma começar pelas bordas da lavoura, é recomendável intensificar a amostragem nessas áreas, em complemento aos pontos distribuídos pelo talhão. A detecção precoce nas bordas permite intervir antes que a infestação avance para o restante da área. 

O manejo dos percevejos da soja começa pela identificação correta da espécie predominante na lavoura, já que cada uma exige atenção em momentos e com sensibilidades diferentes a inseticidas. 

Um programa de controle integrado, que combine monitoramento com pano-de-batida, uso de biológicos, rotação de inseticidas e práticas culturais, é o caminho mais consistente para proteger a produtividade e a qualidade dos grãos ao longo da safra. 

A Syngenta ao lado do produtor de soja 

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Perguntas frequentes 

1. Todo percevejo que aparece na soja é a mesma espécie? 

Não. O complexo reúne três espécies principais no Brasil (Euschistus heros, Nezara viridula e Piezodorus guildinii) e espécies secundárias, como o Diceraeus melacanthus, que ganha importância em sistemas de sucessão soja-milho. 

2. O nível de ação é o mesmo para lavoura de grãos e de sementes? 

Não. Para grãos, o nível de ação é de 2 percevejos adultos (ou ninfas com mais de 0,5 cm) por metro de fileira. Para sementes, cai para 1 percevejo por metro, já que a qualidade fisiológica da semente é mais sensível ao ataque. 

3. Metamidofós ainda pode ser usado contra percevejo na soja? 

Não. O metamidofós está banido no Brasil desde 2012 por decisão da Anvisa, devido à sua toxicidade. O acefato, outro organofosforado, possui registro para a cultura. 

4. Por que o percevejo-verde-pequeno (Piezodorus guildinii) preocupa tanto mesmo sendo menor? 

Porque, mesmo sendo menor, a espécie causa maior dano por indivíduo às sementes, efeito associado à ação de suas enzimas salivares. 

5. Qual é o período mais crítico para o controle de percevejos na soja? 

Vai do estádio R3 ao R6, ou seja, do início da formação das vagens ao final do enchimento de grãos. Antes de R3, a planta ainda consegue compensar parte do dano sofrido.