A sigatoka-negra é uma das doenças foliares de maior impacto na bananicultura e é causada pelo fungo Pseudocercospora fijiensis. A perda precoce de folhas compromete o enchimento dos cachos e pode antecipar o amadurecimento dos frutos, reduzindo a qualidade e a vida verde dos frutos. No Brasil, a doença foi detectada pela primeira vez em 1998, no Amazonas.  

Em cultivares suscetíveis, a doença exige acompanhamento contínuo, especialmente quando o clima favorece novas infecções. 

Reconhecer as primeiras alterações, acompanhar a evolução da sigatoka-negra e preservar folhas funcionais orienta as decisões de manejo no bananal. Nenhuma prática isolada substitui um programa integrado adaptado à cultivar, à região e ao histórico da doença. 

Ficha rápida 

Característica Resumo 
Agente causal Pseudocercospora fijiensis (nome associado à fase sexuada: Mycosphaerella fijiensis) 
Família Mycosphaerellaceae 
Ciclo Doença policíclica: produção de esporos, dispersão, infecção foliar e formação de novas lesões podem se repetir durante o cultivo 
Sintomas Pontuações na face inferior, estrias marrom-claras, manchas marrom-escuras a negras e necrose foliar 
Danos Redução da área fotossintética, frutos menores e maturação precoce e desuniforme 
Manejo Monitoramento, cultivares resistenteso, manejo cultural e fungicidas registrados  

Principais pontos 

  • Os primeiros sinais devem ser procurados principalmente na face inferior das folhas mais novas. 
  • A evolução pode ser organizada em seis estádios; na sigatoka-negra, o halo amarelo é pouco frequente e sua ausência não descarta a doença. 
  • A sigatoka-negra tende a ser mais agressiva que a amarela, mas a velocidade de progressão depende do ambiente e da cultivar. 
  • Chuvas frequentes, umidade elevada e molhamento foliar prolongado favorecem novas infecções. 
  • Após o florescimento, a bananeira não emite novas folhas; por isso, preservar as folhas funcionais é essencial ao enchimento do cacho. 
  • O programa de aplicações de fungicidas precisa considerar mecanismos de ação, registro em bula e recomendações de resistência. 

O que é a sigatoka-negra 

A doença é causada por Pseudocercospora fijiensis. O nome Mycosphaerella fijiensis, associado à fase sexuada, foi substituído com a adoção de um nome único por espécie de fungo, mas permanece comum em publicações técnicas. Os dois nomes designam um só fungo, e não agentes de doenças distintas. 

A Circular Técnica 20, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), “Doenças da bananeira no Estado do Amazonas”, descreve a evolução das lesões e os impactos no desenvolvimento dos frutos.  

Ao destruir a área fotossintética, a doença reduz a capacidade de produção de fotoassimilados. O cacho pode apresentar frutos menores, desuniformes e com maturação antecipada e irregular. 

A bananeira não emite novas folhas após o florescimento. Por isso, as folhas remanescentes precisam sustentar o desenvolvimento dos frutos até a colheita. Em cultivares suscetíveis sem controle, as folhas podem estar totalmente destruídas cerca de 40 dias após o florescimento. 

 A perda precoce dessa área compromete o enchimento dos frutos, reduz a vida verde e encurta o período disponível para transporte e comercialização. 

As perdas variam com a cultivar, o clima e o manejo; em cultivares suscetíveis sem controle, podem atingir a totalidade da produção comercial. 

Os seis estádios dos sintomas 

A escala de seis estádios, descrita pela Embrapa, representa a evolução visual das lesões da sigatoka-negra, e não um calendário fixo de dias. Os estádios podem coexistir na mesma folha, e sintomas avançados das duas sigatokas podem se tornar semelhantes. 

Estádio 1: pontuações e despigmentação 

Pequenos pontos claros ou áreas despigmentadas aparecem somente na face inferior (abaxial) das folhas mais novas, em geral a primeira ou a segunda folha aberta. São discretos e podem passar despercebidos em inspeções feitas apenas pela face superior. 

Estádio 2: estrias marrom-claras 

As pontuações se alongam e formam estrias marrom-claras. Na face inferior, essas estrias atingem de 2 mm a 3 mm de comprimento, segundo a Embrapa. Na face superior, podem alcançar cerca de 3 cm, ainda com coloração marrom-clara.   

Este estádio já deve ser registrado no monitoramento, sem aguardar o surgimento de manchas. 

Estádio 3: expansão das estrias 

As estrias aumentam em comprimento e largura e tornam-se visíveis também na face superior (adaxial). O conjunto produz um aspecto riscado ou hachurado. 

Estádio 4: manchas marrom-escuras 

A lesão se alarga, ganha coloração marrom-escura na face inferior e aspecto de mancha irregular. O tecido começa a perder funcionalidade na área afetada. Diferentemente da sigatoka-amarela, cujas lesões tendem a ser elípticas, as manchas da sigatoka-negra costumam ter contorno irregular. 

Estádio 5: manchas negras 

As manchas escurecem até a coloração negra. A mancha pode apresentar halo escuro, às vezes circundado por um pequeno halo amarelo; esse halo é pouco frequente e ocorre principalmente em cultivares dos subgrupos Prata e Terra.  

A combinação de cor, distribuição e evolução é mais informativa que uma característica isolada. 

Estádio 6: coalescência e necrose 

As manchas se unem (coalescência), e o limbo adquire coloração quase negra antes de secar.  

Na face superior, os centros das lesões ficam deprimidos, de cor cinza-palha, com pontuações escuras correspondentes às estruturas da fase sexuada. Uma lesão em estádio avançado não implica necrose de toda a folha.  

Da pontuação à necrose 

  • Pontuação na face inferior → estria marrom-clara → expansão nas duas faces → mancha marrom-escura → mancha negra → união das lesões e morte foliar. 
  • O monitoramento deve buscar sinais iniciais e sua progressão, não somente folhas já secas. 
Folha de bananeira amarelada com muitas manchas escuras alongadas, cortada ao longo da nervura central, com folhas verdes ao fundo

Ciclo e condições favoráveis 

Esporos e novas infecções 

O fungo produz conídios (reprodução assexuada) e ascósporos (reprodução sexuada). Os ascósporos são produzidos em quantidade muito maior e dispersos principalmente pelo vento; a chuva e os respingos de água também contribuem para a disseminação a curtas distâncias. 

A longas distâncias, a disseminação ocorre principalmente pelo trânsito de mudas, folhas e frutos infectados. 

Em condições favoráveis, os esporos germinam sobre a folha, o fungo penetra pelos estômatos e coloniza o tecido. As novas lesões podem gerar mais inóculo e alimentar ciclos sucessivos. 

O intervalo entre infecção e sintoma varia com clima, cultivar e condições do tecido. Portanto, uma folha aparentemente sadia pode estar em fase de incubação. O controle deve considerar o risco de novas infecções, além da quantidade de necrose já visível. 

Umidade e temperatura 

Chuvas frequentes, umidade elevada e permanência de água sobre as folhas favorecem a doença quando associadas a temperaturas adequadas ao patógeno. Bananais muito fechados podem prolongar o molhamento foliar.  

Entretanto, condições climáticas indicam risco, mas não confirmam a doença: o diagnóstico depende da avaliação dos sintomas e, em caso de dúvida, de análise laboratorial 

Diferenças entre sigatoka-negra e sigatoka-amarela 

Característica Sigatoka-negra Sigatoka-amarela 
Agente causal P. fijiensis (nome associado à fase sexuada: M. fijiensis) Pseudocercospora musae (nome associado à fase sexuada: Mycosphaerella musicola) 
Folhas com os primeiros sintomas Folhas mais novas Folhas um pouco mais velhas 
Sintomas iniciais Pontuações claras que evoluem para estrias finas, marrom-claras Pontos com leve descoloração entre as nervuras secundárias, que evoluem para estrias amareladas e, depois, marrom-escuras 
Face de maior visibilidade no início Inferior (abaxial) Visíveis nas duas faces, com maior nitidez na superior (adaxial) 
Halo amarelo Pouco frequente; ocorre principalmente em cultivares dos subgrupos Prata e Terra Frequente nas lesões de cultivares suscetíveis 
Lesões avançadas Manchas irregulares que coalescem; a folha seca a partir das margens Lesões elípticas, paralelas às nervuras secundárias, com centro deprimido cinza-palha 
Distribuição na folha Concentração próxima à nervura principal Concentração do terço médio às margens 
Agressividade Ciclo mais rápido e maior severidade em cultivares suscetíveis Em geral menos severa, mas pode causar danos importantes 

A tabela apoia a inspeção, mas não substitui a identificação do patógeno. Sintomas tardios podem se sobrepor, e as duas sigatokas podem ocorrer na mesma área; nesse caso, a sigatoka-negra tende a predominar e mascarar a incidência da amarela. 

Em caso de dúvida, solicite diagnóstico especializado antes de alterar o programa de manejo. 

Manejo integrado da sigatoka-negra 

Monitoramento do bananal 

Mantenha uma rotina de inspeção em pontos representativos do talhão. Registre a posição da folha mais nova com lesões, o estádio predominante dos sintomas, o número de folhas funcionais e a evolução após aplicações e desfolhas. Além disso, o histórico de chuvas ajudam a acompanhar tendências, mas não substituem a observação de campo. 

A decisão de intervenção deve seguir método de monitoramento validado para a região e orientação agronômica. 

Desfolha sanitária 

A desfolha sanitária consiste na remoção de folhas ou de partes de folhas comprometidas pela doença. Quando as lesões estão restritas a uma porção do limbo, é possível retirar apenas a área afetada e preservar o tecido verde restante.  

O grau de remoção deve considerar a severidade, o estádio da planta e o número de folhas remanescentes. Remover folhas inteiras com poucas lesões pode ampliar a perda de área fotossintética que o manejo busca evitar. 

Segundo a Embrapa, a desfolha sanitária reduz o inóculo, mas não o elimina totalmente: folhas com lesões menos avançadas também podem produzir esporos, e o bananal pode receber esporos de áreas próximas.  

O manejo dos resíduos deve seguir orientação local, e colocar as folhas no solo não impede, por si só, toda liberação de esporos. Picar as folhas cortadas e favorecer sua decomposição reduz o período de produção de inóculo; o material também funciona como cobertura e devolve nutrientes ao solo. 

Drenagem, espaçamento e desbaste 

Evite encharcamento e mantenha o sistema de drenagem funcional: o excesso de água no solo eleva a umidade no interior do bananal, favorece a doença e prejudica o sistema radicular 

Espaçamento e desbaste também devem favorecer distribuição de luz e circulação de ar.. A condução da touceira com mãe, filha e neta é uma referência comum, mas precisa ser adaptado ao planejamento produtivo. 

Ajuste a nutrição com base em análise de solo e foliar e em recomendação técnica. Plantas bem nutridas tendem a emitir folhas em ritmo mais rápido, o que contribui para manter a área foliar funcional. 

Na irrigação, é recomendável sistemas que molhem menos as folhas, como microaspersão sob a copa ou gotejamento, respeitando a demanda da cultura e a viabilidade do sistema. 

Cultivares e qualidade das mudas 

Cultivares resistentes podem reduzir a dependência do controle químico, quando atendem ao mercado e são adaptadas à região. A escolha deve considerar reação às doenças, qualidade do fruto, aceitação comercial e sistema de cultivo. Use mudas sadias, adquiridas de viveiros inscritos no Renasem (Registro Nacional de Sementes e Mudas) 

Entre as cultivares descritas pela Embrapa como resistentes à sigatoka-negra estão Thap Maeo, Caipira e Prata Zulu; esta última, porém, é suscetível ao mal-do-panamá, o que reforça que resistência a uma doença não implica resistência às demais. 

Use mudas sadias, adquiridas de viveiros inscritos no Renasem (Registro Nacional de Sementes e Mudas) 

Outras doenças exigem medidas diferentes. O moko da bananeira, por exemplo, é uma murcha de origem bacteriana, com diagnóstico e protocolo de manejo distintos dos das manchas foliares fúngicas.  

Fungicidas e gestão de resistência 

Alternar mecanismos, não apenas marcas 

O programa deve utilizar produtos registrados para banana e o alvo indicado, com doses, intervalos, número de aplicações, restrições e modalidades previstos em bula. Consulte o Agrofit (Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários), do MAPA (Ministério da Agricultura), e a orientação do responsável técnico.  

As orientações do FRAC (Comitê de Ação a Resistência a Fungicidas) destacam alternância de mecanismos sem resistência cruzada e o papel dos multissítios.  

Grupo o Código FRAC Diretriz do FRAC para banana 
DMI (inibidores da desmetilação), incluindo triazóis 3 Somente em mistura e em alternância completa com grupos sem resistência cruzada; até 8 aplicações por ano, sem ultrapassar 50% do total. 
Aminas (morfolinas) 5 Uso isolado ou, preferencialmente, em mistura; até 15 aplicações por ano, sem ultrapassar 50% do total, e no máximo 2 aplicações consecutivas. 
QoI (inibidores da quinona externa), incluindo estrobilurinas 11 Somente em mistura e em alternância completa; até 3 aplicações por ano, sem ultrapassar 33% do total. Intervalo mínimo de três meses sem QoI entre as aplicações. 
SDHI (inibidores da succinato desidrogenase), carboxamidas 7 Somente em mistura e em alternância completa; até 3 aplicações por ano, sem ultrapassar 33% do total, sem aplicações consecutivas. Intervalo mínimo de três meses sem SDHI entre as aplicações. 
Anilinopirimidinas 9 Somente em mistura e em alternância completa; até 8 aplicações por ano, sem ultrapassar 50% do total, sem aplicações em bloco. 
Multissítios (fungicidas de contato) M (ex.: M 03, ditiocarbamatos) Uso isolado ou em mistura, sem limite de número ou sequência pelas diretrizes do FRAC, respeitados os limites da bula e compatibilidade; menor risco de resistência. 

Nota: Diretrizes gerais do Grupo de Trabalho de Banana do FRAC. Prevalecem sempre o registro no Agrofit e as restrições da bula de cada produto. 

A estratégia deve combinar proteção de folhas, risco de infecção, qualidade da aplicação e acompanhamento do resultado. 

Óleo mineral e qualidade da aplicação 

Óleos minerais formulados para uso agrícola podem atuar como adjuvantes e apresentar efeito fungistático em determinados programas. O uso depende da formulação, da bula e da compatibilidade da mistura. Pela classificação do FRAC, óleos minerais não pertencem a um grupo de modo de ação (NC, não classificado) e não substituem um multissítio como parceiro antirresistência. 

Misturas inadequadas, concentração excessiva e condições ambientais desfavoráveis podem causar fitotoxicidade. . Calibre equipamentos, confirme cobertura e deposição no alvo e cumpra exigências para aplicações terrestres ou aéreas. Adote medidas contra deriva e de proteção de pessoas, recursos hídricos e áreas sensíveis. 

Checklist do manejo 

  • Inspecionar as duas faces das folhas, com atenção aos primeiros sinais na face inferior das folhas mais novas. 
  • Registrar a posição da folha mais nova com lesões, o estádio dos sintomas e o número de folhas funcionais, sobretudo após o florescimento. 
  • Preservar tecido funcional ao planejar desfolha sanitária e dar destino adequado às folhas cortadas. 
  • Corrigir problemas de drenagem, adensamento e manejo da touceira e reduzir o molhamento foliar na irrigação. 
  • Avaliar o uso de cultivares resistentes adaptadas à região e ao mercado e usar mudas sadias de viveiros inscritos no Renasem. 
  • Conferir registro no Agrofit, bula, códigos FRAC, limites de aplicações por grupo e histórico de aplicações antes de definir o programa. 
  • Reavaliar falhas de controle sem atribuí-las automaticamente à resistência: diagnóstico, clima e qualidade da aplicação também precisam ser verificados. 

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Perguntas frequentes 

1. Por que a sigatoka-negra pode antecipar o amadurecimento da banana? 

A perda severa de área foliar reduz a produção de fotoassimilados destinados aos frutos, que tendem a ficar menores e a amadurecer de forma precoce e desuniforme, com menor vida verde. 

2. Onde procurar os primeiros sintomas da sigatoka-negra? 

Na face inferior das folhas mais novas, onde surgem pequenas despigmentações que evoluem para estrias marrom-claras. Depois, as lesões se tornam visíveis nas duas faces. 

3. Como diferenciar sigatoka-negra da sigatoka-amarela? 

Na sigatoka-negra, os primeiros sinais surgem na face inferior das folhas mais novas, com estrias marrom-claras e halo amarelo pouco frequente. Na sigatoka-amarela, os sintomas aparecem em folhas um pouco mais velhas, são mais visíveis na face superior e evoluem para lesões elípticas, em geral com halo amarelo. Em casos de dúvida, confirme o diagnóstico em laboratório. 

4. Por que a sigatoka-negra é mais agressiva que a sigatoka-amarela? 

A sigatoka-negra tem ciclo mais rápido, atinge folhas mais novas e produz grande quantidade de ascósporos, dispersos principalmente pelo vento. Quando as duas doenças ocorrem na mesma área, a sigatoka-negra tende a predominar e mascarar a incidência da amarela. 

5. Em quais condições a sigatoka-negra avança mais rápido? 

Chuvas frequentes, umidade relativa elevada e molhamento foliar prolongado favorecem a doença, sobretudo com temperaturas acima de 21 °C. A faixa ótima para o patógeno fica próxima de 28 °C. 

6. O que fazer com as folhas cortadas? 

Siga a orientação de manejo de resíduos para a região. A disposição no solo pode integrar o manejo, mas não impede que o material continue produzindo e liberando esporos por algum tempo. Picar as folhas cortadas e favorecer sua decomposição reduz o período de produção de inóculo. 

7. É possível misturar óleo mineral a qualquer fungicida? 

Não. Verifique bula, formulação, compatibilidade e orientação técnica. Use apenas óleo mineral formulado para uso agrícola. Misturas inadequadas podem reduzir o desempenho do tratamento ou causar fitotoxicidade. 

8. Existem cultivares resistentes? 

Sim. Entre as cultivares descritas pela Embrapa como resistentes estão Thap Maeo e Caipira. A escolha deve considerar a reação da cultivar à sigatoka-negra descrita pela pesquisa, adaptação regional e mercado. Consulte recomendações dos programas de melhoramento e a assistência técnica.