O fósforo (P) é o nutriente que mais onera o custo de produção nas lavouras brasileiras. Em solos de Cerrado, onde a fixação de P pela fração argilo-mineral é intensa, grande parte do fertilizante aplicado torna-se indisponível às plantas em questão de semanas.
Esse cenário coloca em evidência uma questão estratégica: seria possível reduzir a dependência do superfosfato sem comprometer a produtividade?
Os fungos micorrízicos arbusculares (FMA) surgem nesse contexto como alternativa biológica com respaldo científico crescente. Pesquisas da Embrapa Cerrados demonstram que a inoculação micorrízica pode ampliar significativamente a absorção de P em condições de baixa disponibilidade no solo, com reflexos positivos na produtividade de culturas como soja, milho e café.
Neste conteúdo, são apresentados os mecanismos de ação de cada estratégia, as condições em que cada uma se justifica agronomicamente e como integrá-las para maximizar a eficiência de uso de fósforo na lavoura.
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Fungos micorrízicos arbusculares: a rede invisível que potencializa a absorção radicular
Os FMA são microrganismos do filo Glomeromycota que estabelecem simbiose obrigatória com as raízesda maioria das espécies vegetais cultivadas.
A simbiose funciona por meio de uma troca metabólica: a planta fornece carboidratos ao fungo, e o fungo, em contrapartida, expande a capacidade de absorção radicular por meio de hifas extraradiculares que penetram em microporos do solo inacessíveis aos pelos radiculares convencionais.
Como a simbiose radicular expande a zona de captação de nutrientes
A colonização radicular pelos FMA resulta em uma rede de hifas que pode se estender por vários centímetros além da rizosfera imediata. Essa extensão é particularmente relevante para o fósforo, nutriente de baixa mobilidade no solo.
Segundo estudo publicado na Pesquisa Agropecuária Brasileira (SciELO), a inoculação com FMA em soja e sorgo conduzido em casa de vegetação resultou em incrementos expressivos na absorção de P em solos com baixo teor disponível, evidenciando o papel das hifas na exploração de zonas do solo não alcançadas pelas raízes.
Além do fósforo: água, micronutrientes e resiliência às adversidades
A simbiose micorrízica não se restringe ao fósforo. As hifas também contribuem para a absorção de zinco, cobre e manganês e outros nutrientes, além de melhorar a eficiência hídrica da planta em períodos de déficit.
Há ainda evidências de que a colonização micorrízica fortalece a resistência das plantas a patógenos de solo, como Fusarium spp., por meio de mecanismos de indução de resistência sistêmica.
Esses benefícios adicionais ampliam o valor agronômico da inoculação para além da nutrição fosfatada.
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Os riscos ocultos do excesso de superfosfato na biologia do solo
O superfosfato triplo e o superfosfato simples são fontes de P solúvel amplamente utilizadas na adubação de base e de cobertura. Sua eficiência imediata é inegável em situações de alto requerimento de P, especialmente na fase de estabelecimento das culturas.
Contudo, o uso em doses elevadas gera efeitos colaterais que merecem atenção técnica.
Por que o fósforo em excesso bloqueia a colonização micorrízica
Um dos fenômenos mais documentados na literatura é a inibição micorrízica por fósforo. Quando o teor de P disponível no solo é elevado, a planta reduz o investimento metabólico na simbiose, pois a relação custo-benefício da associação deixa de ser vantajosa.
Estudos conduzidos em solos de Cerrado demonstraram que doses crescentes de superfosfato reduziram progressivamente a colonização radicular por FMA , comprometendo os benefícios de longo prazo da microbiota do solo.
Acidificação e imobilização de fósforo: o dilema dos solos tropicais
Em solos tropicais com alta concentração de óxidos de ferro e alumínio, o P solúvel aplicado via superfosfato reage rapidamente com esses minerais, formando compostos de baixa solubilidade.
Esse processo, conhecido como fixação ou adsorção de P, reduz a eficiência do fertilizante e exige doses cada vez maiores para manter a disponibilidade adequada.
A acidificação localizada ao redor do grânulo de superfosfato também pode afetar negativamente a atividade microbiana do solo, incluindo a sobrevivência dos propágulos de FMA.
Comparativo FMA vs. superfosfato: critérios para a decisão agronômica
A tabela a seguir sintetiza os principais critérios para a escolha entre as duas estratégias, considerando as diferentes condições de solo e de manejo:
| Critério | FMA | Superfosfato triplo |
| Custo por hectare | Baixo a moderado | Moderado a alto |
| Velocidade de resposta | Gradual (colonização) | Imediata |
| Eficiência em solo com baixo P | Alta | Moderada (fixação) |
| Eficiência em solo muito degradado | Baixa | Alta |
| Impacto na microbiota | Positivo | Pode inibir FMA em altas doses |
| Benefícios adicionais | Maior absorção de água e nutrientes pela planta, resistência a patógenos | Apenas P |
Onde os fungos micorrízicos realmente transformam a produtividade
A resposta da planta à inoculação com FMA não é universal. Ela depende de variáveis como o teor de P disponível no solo, o histórico de manejo da área e a dependência micorrízica da cultura em questão.
Solos pobres em fósforo e sistemas consolidados de plantio direto
Em solos com baixa disponibilidade de fósforo e histórico de plantio direto consolidado, a população nativa de FMA tende a ser mais diversa e ativa.
Nesses contextos, a inoculação com espécies selecionadas de FMA pode potencializar a colonização radicular e ampliar a absorção de P sem a necessidade de elevar as doses de superfosfato.
A Embrapa documenta que a diversidade microbiana da rizosfera é significativamente influenciada pela fonte de P utilizada, sendo maior em sistemas com menor dependência de fertilizantes solúveis.
Quais culturas mais se beneficiam da simbiose micorrízica
Soja, milho, café e a maioria das espécies hortícolas apresentam alta dependência micorrízica, ou seja, respondem positivamente à colonização por FMA mesmo em condições de P moderado.
Culturas como beterraba e espinafre, por outro lado, têm baixa dependência e respondem menos à inoculação. O conhecimento da dependência micorrízica da cultura é, portanto, um critério fundamental para a decisão de inocular.

Por que o superfosfato ainda merece espaço na sua estratégia de nutrição
Há situações em que a adubação fosfatada convencional é insubstituível do ponto de vista agronômico. Reconhecer esses cenários evita frustrações com a inoculação micorrízica e preserva a racionalidade econômica do programa de adubação.
Solos severamente degradados e demandas imediatas de fósforo
Em solos com histórico de degradação intensa, baixa matéria orgânica e população de FMA nativos reduzida, a inoculação tende a apresentar resposta limitada.
Nesses casos, o superfosfato é a fonte mais confiável para suprir o P necessário ao estabelecimento inicial da cultura.
A ausência de propágulos viáveis de FMA no solo compromete a colonização radicular, tornando o bioinsumo ineficaz sem uma estratégia prévia de recuperação da microbiota.
Estabelecimento inicial e recuperação estrutural do solo
Na fase de implantação de uma lavoura em área nova ou em processo de correção de acidez e fertilidade, o requerimento de P é elevado e imediato.
O superfosfato, por sua solubilidade, atende a essa demanda com rapidez. A inoculação com FMA pode ser introduzida progressivamente, à medida que o solo se estabiliza e a população microbiana se restabelece.
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Combinando fungos micorrízicos e superfosfato: o caminho para máxima eficiência fosfatada
A abordagem mais racional não é escolher entre FMA e superfosfato, mas definir o papel de cada um dentro de um programa de adubação fosfatada integrado.
A lógica é simples: o superfosfato supre o P imediato nas fases críticas de estabelecimento, enquanto os FMA ampliam a eficiência de absorção ao longo do ciclo.
Para que essa integração funcione, é fundamental calibrar a dose de superfosfato de modo a não inibir a colonização micorrízica.
Estudos da Embrapa Cerrados indicam que doses moderadas de P solúvel, combinadas com inoculação de FMA, resultam em maior eficiência de uso do nutriente do que doses elevadas de superfosfato isolado.
A manutenção da matéria orgânica do solo, favorecida pelo plantio direto, também é condição essencial para a sobrevivência e a atividade dos FMA ao longo das safras.
A decisão final deve ser orientada pela análise de solo, pelo histórico de manejo da área e pela dependência micorrízica da cultura.
Além disso, o acompanhamento de um agrônomo é indispensável para ajustar doses, escolher as espécies de FMA mais adaptadas à região e monitorar a resposta da lavoura ao longo do ciclo.
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