A mancha de turcicum no milho, causada por Exserohilum turcicum, também conhecida como helmintosporiose, ressurgiu como uma das principais preocupações fitossanitárias nas lavouras brasileiras, impactando severamente a produtividade, especialmente na safrinha.
Produtores e agrônomos observam o avanço significativo dessa doença em diversas regiões do país, exigindo uma reavaliação das estratégias de manejo e o uso criterioso de fungicidas.
As perdas de produtividade causadas pela mancha de turcicum podem ser substanciais, atingindo até 50% em ataques severos que ocorrem antes da floração, principalmente em genótipos suscetíveis e sob condições climáticas favoráveis.
Diante desse cenário desafiador, este conteúdo abordará os aspectos biológicos da doença, os motivos de seu ressurgimento e como o monitoramento e o posicionamento estratégico de fungicidas se tornam ferramentas indispensáveis.
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O que é a mancha de turcicum e como ela afeta o milho
A mancha de turcicum, ou helmintosporiose do milho, é uma doença fúngica de grande importância na cultura, causada pelo patógeno Exserohilum turcicum.
Esse fungo tem demonstrado capacidade crescente de causar danos significativos nas lavouras, comprometendo a área foliar verde e, consequentemente, o rendimento final dos grãos.
Biologia de Exserohilum turcicum e ciclo da doença
O fungo Exserohilum turcicum (sinônimos: Drechslera turcica; teleómorfo: Setosphaeria turcica) é o agente causal da mancha de turcicum. Ele é amplamente disseminado nas áreas de cultivo de milho no Brasil, sendo mais problemático em plantios de safrinha.
O patógeno sobrevive em restos culturais de milho, como palha e colmos, servindo como fonte de inóculo primário para as safras seguintes. Sua dispersão ocorre principalmente pelo vento e respingo de água, facilitando a infecção inicial nas folhas inferiores e médias.
O ciclo da doença é favorecido por condições de alta umidade relativa do ar, orvalho prolongado (mais de 5 horas) e temperaturas amenas entre 18°C e 27°C, que estimulam a esporulação e a infecção.
A baixa luminosidade também contribui para o desenvolvimento da doença, criando um ambiente propício para a proliferação do fungo.
Sintomas, diagnóstico e impacto na área foliar verde e na produtividade
Os sintomas característicos da mancha de turcicum são lesões elípticas e alongadas, que variam de 2,5 cm a 15 cm de comprimento. Inicialmente, as lesões apresentam coloração verde-acinzentada, evoluindo para marrom-escura, com centro amarelado a cinza e bordas avermelhadas em plantas mais velhas.
Em condições de alta umidade, é comum observar a esporulação escura do fungo nas lesões.
Em ataques severos, a doença pode causar a “queima” completa dos tecidos foliares, especialmente em cultivares suscetíveis, comprometendo significativamente a área foliar verde (AFV).
A redução da AFV impacta diretamente a capacidade fotossintética da planta, diminuindo a produção de fotoassimilados essenciais para o enchimento dos grãos.
Segundo a Embrapa, a mancha de turcicum pode causar perdas de produtividade de até 50% quando não controlada.
Por que a mancha de turcicum voltou a ser problema nas lavouras
A mancha de turcicum não é uma doença nova para o milho, mas sua incidência e severidade têm aumentado consideravelmente nos últimos anos.
Essa reemergência está diretamente ligada a uma combinação de fatores climáticos e agronômicos que criam um ambiente ideal para o desenvolvimento do fungo.
Fatores climáticos e agronômicos que favorecem a doença
As condições climáticas desempenham papel crucial no ressurgimento da mancha de turcicum.
Temperaturas amenas (18°C a 27°C), alta umidade relativa do ar e períodos prolongados de orvalho (superiores a 6 horas) são ideais para a esporulação e infecção do E. turcicum.
Regiões do Cerrado e Sul do Brasil, especialmente na safrinha, frequentemente apresentam essas condições favoráveis.
O manejo inadequado, como o plantio contínuo de milho sem rotação de culturas, favorece o acúmulo de inóculo do fungo nos restos culturais. A ausência de controle químico em anos de alta pressão da doença e a adubação com excesso de nitrogênio também são fatores que aumentam a severidade da mancha de turcicum.
A adoção do sistema plantio direto, embora benéfica para a conservação do solo, pode agravar o problema se não houver rotação de culturas.
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Relação com a resistência de cultivares e o sistema de produção
A escolha de cultivares desempenha papel fundamental na suscetibilidade ou resistência à mancha de turcicum.
Embora existam híbridos com genes de resistência (como Ht1, Ht2, Ht3 e HtN), a utilização de genótipos suscetíveis tem contribuído significativamente para o aumento da severidade da doença.
Cultivares de milho pipoca, por exemplo, são notoriamente mais suscetíveis ao patógeno.
A intensificação do sistema de produção, com o aumento da área cultivada com milho na segunda safra, aliada à sucessão de culturas como soja-milho sem períodos de vazio sanitário, cria um “ciclo vicioso” de inóculo.
Esse cenário, combinado com a pressão seletiva sobre o fungo devido ao uso inadequado de fungicidas, favorece a adaptação e o avanço da doença.
Monitoramento e critérios para a tomada de decisão no controle
O manejo eficaz da mancha de turcicum depende diretamente de um monitoramento rigoroso e da tomada de decisão embasada em critérios técnicos sólidos.
A intervenção no momento certo, considerando o nível de dano econômico, é fundamental para garantir a eficácia do controle e o retorno sobre o investimento.
Como identificar o momento certo para intervir
A identificação do momento ideal para intervir é crucial. O monitoramento deve ser iniciado precocemente, observando as folhas inferiores e médias da planta em busca dos primeiros sintomas.
A primeira aplicação de fungicida é recomendada quando os sintomas visuais da doença começarem a aparecer nessas folhas, antes que a infecção atinja a parte acima da espiga, que é a área foliar mais crítica para a produtividade do milho.
Inspeções regulares na lavoura são indispensáveis, especialmente em períodos de condições climáticas favoráveis à doença e em áreas com histórico de alta pressão de inóculo.
A frequência do monitoramento deve ser intensificada em cultivares suscetíveis e em sistemas de plantio direto sem rotação de culturas.
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Nível de dano econômico e ferramentas de apoio à decisão
A decisão de aplicar fungicidas deve ser baseada no Nível de Dano Eco
nômico (NDE), que considera o custo da aplicação e o potencial de perda de produtividade. Para culturas de alto valor, como híbridos de milho com alto potencial produtivo, o custo-benefício do controle químico é mais favorável.
Ferramentas de apoio à decisão, como modelos de previsão e softwares de manejo, podem auxiliar o produtor e o agrônomo a definir o NDE e a prever o risco de ocorrência da doença.
O histórico da área, a suscetibilidade do híbrido, as condições climáticas previstas e o estágio fenológico do milho são fatores que devem ser ponderados.
A Embrapa Milho e Sorgo oferece pesquisas e recomendações que podem guiar essa tomada de decisão.
Como posicionar fungicidas no controle da mancha de turcicum
O uso estratégico de fungicidas é uma das principais ferramentas para o controle da mancha de turcicum no milho. Contudo, para garantir a máxima eficácia e evitar o desenvolvimento de resistência do patógeno, é fundamental posicionar corretamente as aplicações, considerando os estádios fenológicos da cultura e a escolha adequada dos grupos químicos.
Estádios fenológicos ideais para a aplicação de fungicidas
O momento da aplicação de fungicidas é determinante para o sucesso do controle.
A primeira aplicação geralmente é recomendada a partir dos estádios vegetativos mais avançados (V8–V10), quando os sintomas começam a aparecer nas folhas mais velhas e o milho está se desenvolvendo para os estádios reprodutivos.
O momento crítico para a proteção da cultura é o período que antecede e durante o florescimento (pendoamento e emissão de espigas – VT/R1), pois as folhas superiores e a folha bandeira são cruciais para a produtividade.
Em lavouras com alta pressão da doença ou em cultivares altamente suscetíveis, uma segunda aplicação pode ser necessária cerca de 15 a 20 dias após a primeira, para garantir a proteção prolongada da área foliar verde durante o enchimento de grãos.
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Grupos químicos com maior eficácia e estratégia de rotação
A escolha dos grupos químicos de fungicidas é vital para o controle efetivo da mancha de turcicum e para a gestão da resistência. Misturas de fungicidas com diferentes mecanismos de ação são geralmente mais eficazes.
Resultados internos de ensaios conduzidos pela Syngenta (Balardin, 2017) mostraram que misturas de estrobilurinas com protetores como o mancozebe promoveram ganhos de produtividade de grãos de milho em torno de 25% em relação à testemunha sem aplicação.
A combinação de triazóis com estrobilurinas também é eficaz. Os triazóis (como o propiconazol) atuam na biossíntese de ergosterol, um componente essencial da membrana fúngica, e têm demonstrado bom resultado na redução da severidade da doença.
A rotação de grupos químicos (código FRAC) é uma prática recomendada para evitar a seleção de populações de fungos resistentes e prolongar a vida útil das moléculas disponíveis.
Posicionamento de fungicidas no controle da mancha de turcicum no milho
| Estádio de aplicação | Grupo químico (FRAC) | Eficácia relativa | Observações técnicas |
| V8–V10 (início dos sintomas) | Estrobilurinas + Protetores | Alta | Excelente ação protetora e curativa inicial. Protege folhas inferiores e reduz inóculo inicial. |
| VT–R1 (Pendoamento/Espigamento) | Triazóis + Estrobilurinas | Muito alta | Amplo espectro, sistêmico. Fundamental para proteger folhas superiores e folha bandeira. |
| R2–R3 (enchimento de grãos) | Triazóis ou Estrobilurinas + Protetores | Média a alta | Aplicação de reforço em alta pressão ou materiais suscetíveis. Atentar ao intervalo de segurança. |
Consulte o MAPA Agrofit para verificar os produtos registrados e as dosagens recomendadas para a cultura do milho no Brasil.
Integração do controle químico com outras estratégias de manejo
O controle químico é uma ferramenta poderosa, mas não deve ser a única estratégia no manejo da mancha de turcicum. A integração com outras práticas de manejo, como o uso de resistência genética e o manejo cultural, é essencial para um controle sustentável e duradouro.
Resistência genética de híbridos como base do manejo
A utilização de híbridos de milho com resistência genética é a base de qualquer programa de manejo de doenças.
Existem genes de resistência bem caracterizados para Exserohilum turcicum, como Ht1, Ht2, Ht3 e HtN, que conferem diferentes níveis de proteção contra o patógeno.
A escolha de cultivares com esses genes é a forma mais econômica e ambientalmente sustentável de controle da doença, pois reduz a necessidade e a frequência de aplicações de fungicidas.
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Manejo cultural e rotação de culturas para reduzir a pressão da doença
O manejo cultural desempenha papel crucial na redução da pressão de inóculo de E. turcicum no ambiente. A rotação de culturas com espécies não hospedeiras, como soja, feijão ou algodão, é uma prática altamente recomendada.
Essa medida quebra o ciclo da doença ao eliminar a fonte de inóculo (restos culturais de milho) e impedir a sobrevivência do fungo no solo.
Outras práticas culturais importantes incluem:
- Destruição de restos culturais: em áreas de alta pressão da doença, a destruição parcial dos restos culturais ou a incorporação de parte deles pode reduzir o inóculo.
- Adubação equilibrada: evitar o excesso de nitrogênio, que pode favorecer a doença, e garantir o fornecimento adequado de outros nutrientes que fortalecem a planta.
- Controle de plantas daninhas: reduzir a competição por nutrientes e água, permitindo que a planta de milho tenha mais vigor para resistir a doenças.
- Espaçamento e população de plantas: adequar o espaçamento e a população de plantas para garantir boa aeração do dossel, reduzindo a umidade e as condições favoráveis ao fungo.
A adoção dessas práticas em conjunto com o uso racional de fungicidas forma um sistema robusto de manejo integrado de doenças, essencial para a sustentabilidade da produção de milho no Brasil.
A Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável.
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