Discreto, porém extremamente adaptável, o pulgão-verde (Myzus persicae) é uma das pragas mais notórias e versáteis no cenário agrícola. Seu pequeno porte esconde um inimigo capaz de colonizar rapidamente diversas culturas, reproduzindo-se de forma acelerada e formando grandes populações em curtos períodos.  

O maior desafio enfrentado por produtores está tanto nos danos diretos causados pela sucção da seiva (enfraquecendo as plantas e comprometendo a produtividade) quanto na sua eficiência como vetor de vírus, que elevam potencialmente as perdas econômicas. A atuação do pulgão-verde vai além do simples ataque visual, impactando o rendimento, a qualidade da colheita e até a comercialização de frutos e hortaliças. 

Neste conteúdo, você vai entender os principais aspectos biológicos do pulgão-verde, como identificá-lo, os prejuízos que causa, e as estratégias mais eficazes para proteger suas culturas desse inimigo persistente. 

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Características do pulgão-verde

O Myzus persicae, ou pulgão-verde, é um inseto hemíptero da família Aphididae, reconhecido globalmente por sua alta capacidade de adaptação e polifagia, ou seja, de se alimentar de uma vasta gama de plantas hospedeiras

A versatilidade ecológica do pulgão-verde é uma de suas características mais preocupantes. Ele é conhecido como pulgão-verde-do-pessegueiro por ser uma praga primária em pomares de pêssego, mas sua dieta é muito mais ampla. Este inseto infesta mais de 40 famílias de plantas e centenas de espécies diferentes, incluindo diversas culturas de grande importância econômica no Brasil. Entre elas, destacam-se hortaliças como o tomate, pimentão, batata, alface e brócolis. 

Pulgão-verde (Myzus persicae) visto de perto.
Fonte: Informe agropecuário | Pragas em Cultivos Protegidos e o Controle Biológico

O inseto consegue se adaptar a diferentes condições climáticas, embora prefira temperaturas amenas e umidade moderada para seu desenvolvimento ótimo. No Brasil, sua presença é ubíqua em praticamente todas as regiões produtoras, com maior incidência em períodos mais secoso e temperaturas elevadas, onde a planta hospedeira tende a estar mais estressada e, portanto, mais suscetível.

A dispersão das formas aladas pelo vento é um fator crucial para sua rápida disseminação, tornando o controle regionalizado um desafio e exigindo uma abordagem integrada que contemple não apenas a lavoura em questão, mas também áreas circundantes de plantas hospedeiras alternativas, como invasoras. A capacidade de migrar entre diferentes hospedeiros e de colonizar rapidamente novas áreas é um dos pilares de seu sucesso como praga. 

Ciclo de vida do Myzus persicae 

O pulgão-verde apresenta-se em duas formas principais: áptera (sem asas) e alada (com asas).  

As formas ápteras são geralmente verdes, por vezes amareladas ou rosadas, com corpo em formato de pera, medindo cerca de 1,2 a 2,5 mm de comprimento. Possuem dois sifúnculos (estruturas tubulares) proeminentes no abdômen, que são uma característica distintiva de afídeos, e uma cauda curta e cônica.  

As formas aladas são tipicamente mais escuras, com cabeça e tórax pretos e abdômen verde-oliva, e são as responsáveis pela dispersão da praga entre as lavouras.

Pulgão-verde (Myzus persicae) em forma áptera e alada
Fonte: Embrapa | Guia para o manejo de pulgões e viroses associadas na cultura da alface

O ciclo de vida do Myzus persicae é notável pela sua rapidez e flexibilidade, favorecendo altas taxas de reprodução. Sob condições ideais, uma ninfa pode atingir a fase adulta em apenas 8 a 10 dias.  

A reprodução é predominantemente partenogenética e vivípara, o que significa que as fêmeas dão origem a clones vivos sem a necessidade de fertilização. Uma única fêmea pode gerar de 25 a 75 novas ninfas ao longo de sua vida, que dura cerca de 20 a 430 dias. 

Essa reprodução assexuada permite um crescimento populacional exponencial em curtos períodos, tornando o monitoramento contínuo indispensável para evitar surtos. Em climas mais frios, em algumas regiões do mundo, pode ocorrer a fase sexuada com a produção de ovos de resistência, mas no Brasil, a reprodução partenogenética é a mais comum durante todo o ano, o que intensifica a pressão da praga. 

Principais culturas afetadas pelo pulgão-verde 

A polifagia do Myzus persicae o posiciona como uma ameaça global em diversas culturas. No contexto brasileiro, sua atuação como praga do tomate e praga de hortaliças é particularmente notória, mas seu espectro de ataque é muito mais amplo. Ele infesta culturas como: 

  • Hortaliças: tomate, batata, pimentão, alface, brócolis, couve, berinjela, cenoura, pepino.
  • Frutíferas: pêssego, ameixa, nectarina, morango.
  • Grandes culturas: fumo, canola, beterraba, girassol e, pontualmente, soja e algodão. 

Os impactos econômicos são substanciais. O documento da Embrapa “Batata – Viróticas” (2022) destaca que o pulgão-verde (Myzus persicae) é o principal vetor do vírus Y da batata (PVY), uma das principais viroses que afetam a cultura. O vírus pode ser transmitido em poucos segundos pela sucção do pulgão, que dissemina a doença rapidamente dentro da lavoura. Em condições adversas, essa transmissão pode causar perdas severas de produtividade. 

A complexidade do manejo aumenta com a capacidade do inseto de desenvolver resistência a inseticidas, exigindo um planejamento de longo prazo e o uso de múltiplas táticas. 

Danos causados pelo pulgão-verde 

Os danos causados por Myzus persicae podem ser categorizados em diretos e indiretos, ambos com potencial para impactar severamente a rentabilidade do produtor rural.  

Os danos diretos do pulgão-verde resultam da sua alimentação. O inseto possui um aparelho bucal picador-sugador, que perfura os tecidos vegetais para se alimentar da seiva elaborada, rica em açúcares e nutrientes. Essa sucção contínua causa o enfraquecimento da planta, podendo levar a: 

  • Encarquilhamento das folhas: as folhas infestadas tendem a se deformar, enrolar e enrugar, um sintoma clássico de toxemia salivar e desbalanço hídrico/nutricional. Isso reduz a área fotossintética, comprometendo o desenvolvimento da planta. 
  • Amarelamento e necrose: em infestações severas, as folhas podem amarelecer e, posteriormente, apresentar manchas necróticas, culminando na senescência precoce e queda das folhas. 
  • Murcha e nanismo: a perda contínua de seiva pode provocar murcha generalizada da planta e um retardo significativo no crescimento, resultando em nanismo e menor porte. 
  • Perda de vigor e produtividade: o estresse fisiológico constante diminui a capacidade da planta de produzir flores, frutos ou grãos, resultando em perdas quantitativas e qualitativas na colheita. 

Além dos danos diretos, o pulgão-verde é um vetor extremamente eficiente de doenças virais, representando os danos indiretos mais significativos. Ele é capaz de transmitir mais de 100 tipos de vírus fitopatogênicos de forma não persistente, semi-persistente e persistente.  

O Myzus persicae é reconhecido como vetor principal de diversos vírus que afetam culturas agrícolas, destacando-se especialmente na transmissão do Potato Leafroll Virus (PLRV), do Potato Virus Y (PVY) e de outros patógenos virais. Esse inseto-praga possui alta eficiência na transmissão viral, o que contribui para a rápida disseminação dessas doenças nas plantas, resultando em perdas significativas de produção.  

Outro dano indireto relevante é a produção de “honeydew”, uma secreção açucarada expelida pelos pulgões. Esta substância serve de substrato para o desenvolvimento da fumagina (ou bolor fuliginoso), um fungo que forma uma camada preta sobre as folhas, caules e frutos.  

A fumagina, embora não seja patogênica para a planta, reduz drasticamente a capacidade fotossintética ao bloquear a luz solar, diminui a qualidade estética dos produtos (especialmente em frutas e hortaliças) e dificulta a comercialização, além de prejudicar a eficiência de pulverizações foliares. 

Técnicas de manejo para controle do Myzus persicae 

O manejo eficaz do pulgão-verde exige uma abordagem estratégica e multifacetada, fundamentada nos princípios do Manejo Integrado de Pragas (MIP). O sucesso reside na combinação inteligente de diferentes táticas, começando pelo monitoramento rigoroso, incluindo: 

  1. Inspeção visual: realize inspeções frequentes nas folhas jovens e brotações para identificar precocemente focos do pulgão, especialmente na face inferior das folhas.
  2. Armadilhas adesivas amarelas: instale placas adesivas amarelas ao nível das folhas para capturar pulgões alados e monitorar o início da infestação.  
  3. Amostragem aleatória: faça coletas em pontos aleatórios da lavoura para contar pulgões, permitindo calcular a densidade populacional e tomar decisões de controle com base em dados confiáveis.  
  4. Rotação de culturas: alterne culturas hospedeiras e não hospedeiras para dificultar a sobrevivência do pulgão e reduzir sua população no solo. 
  5. Eliminação de plantas daninhas: mantenha a lavoura e áreas periféricas limpas para eliminar potenciais hospedeiros alternativos do pulgão.  
  6. Manejo nutricional equilibrado: evite excesso de nitrogênio na adubação, pois brotações muito suculentas atraem mais pulgões. 

        Controle biológico do pulgão

        O controle biológico do pulgão é uma estratégia importante no MIP, utilizando organismos vivos para reduzir as populações da praga. A natureza oferece uma gama impressionante de inimigos naturais do pulgão que atuam como predadores ou parasitoides. 

        • Parasitoides: microvespas da família Braconidae (gênero Aphidius) e Aphelinidae. As fêmeas depositam seus ovos dentro dos pulgões, que são consumidos internamente pela larva. O pulgão parasitado incha e endurece, transformando-se em uma “múmia” marrom-dourada, de onde emerge uma nova vespa.
        • Predadores:
          • Joaninhas (Coccinellidae): tanto as larvas quanto os adultos são vorazes predadores de pulgões. Espécies como Cycloneda sanguinea e Eriopis connexa são comuns no Brasil.
          • Crisopídeos (Chrysopidae): as larvas, conhecidas como “bichos-lixeiros”, são predadoras eficientes e podem consumir centenas de pulgões durante seu desenvolvimento. 
          • Sírfideos (Syrphidae): as larvas de algumas espécies de moscas sírfideas são excelentes predadoras de pulgões. 
          • Percevejos predadores (Orius, Geocoris): algumas espécies de percevejos também se alimentam de pulgões. 

        Controle químico do pulgão 

        O controle químico do pulgão é uma ferramenta poderosa, que deve ser usada quando o nível de infestação atinge o nível de controle da praga, antes de chegar o nível de dano econômico. A escolha do inseticida deve considerar a cultura, o alvo, a presença de inimigos naturais e a rotação de modos de ação para evitar a seleção de resistência. 

        O avanço tecnológico tem sido um aliado importante no combate ao pulgão-verde. A pesquisa e o desenvolvimento contínuos trazem novas ferramentas e abordagens que complementam as estratégias tradicionais de manejo. Estas inovações oferecem maior precisão, eficiência e, em muitos casos, maior sustentabilidade ambiental. 

        O pulgão-verde é, de fato, um desafio em diversos sistemas produtivos. Ainda assim, sua pressão pode ser reduzida com monitoramento constante e estratégias de manejo integrado bem aplicadas. Assim, é possível preservar a sanidade das plantas e viabilizar o desempenho econômico da lavoura a longo prazo. 

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