O período entre o fim de 2021 e o início deste ano apresentou instabilidades climáticas que influenciaram as lavouras em diferentes regiões produtoras. De fato, o fechamento negativo de produtividade da safra 21/22 de soja em muito se deve à crise hídrica, que acometeu especialmente a região Sul do Brasil. Assim, as previsões do clima em junho podem ser determinantes para a tomada de decisões e planejamento na agricultura.

O mês de fevereiro ainda apresentou chuvas abundantes na região Centro-Oeste, enquanto o Sul continuou em condição de escassez. A partir de março, viu-se a situação inversa, com chuvas suficientes ao Sul e período de seca na parte central do Brasil, mantendo chuvas regulares em Matopiba.

Com isso, e com a continuidade de chuvas bem distribuídas na região Sul em abril e maio, a produtividade nacional de soja conseguiu ligeira elevação, ainda que distante de alcançar os bons números da safra 20/21.

No que diz respeito à produção de milho safrinha, boa parte de São Paulo e Mato Grosso do Sul tiveram bons índices pluviométricos, mas Minas Gerais, Goiás e o centro-sul de Mato Grosso sofreram estiagem, o que pode ter proporcionado perdas na segunda safra.

Entretanto, engana-se quem pensa que apenas a falta de chuva foi um problema. A alta pluviosidade em algumas regiões produtoras de milho e soja foram negativas para os produtores no momento de fechamento de safra, a exemplo de uma parte do Cerrado, em que as chuvas abundantes dificultaram a colheita. Por outro lado, os Estados de Minas Gerais, Goiás e Mato grosso foram os mais afetados, por passarem por longas invernadas no período da colheita.

Para entender melhor sobre o comportamento do clima nesses primeiros cinco meses de 2022 e compreender o que o produtor deve esperar a partir de junho, conversamos com Alexandre Nascimento, meteorologista da Rural Clima. Ele nos oferece um panorama completo, assim, é possível analisar a relação entre condições climáticas e agricultura e preparar-se para o que está por vir, não apenas em relação aos cultivos de soja e milho, mas também no que diz respeito a cana-de-açúcar, algodão e café.

La Niña: ainda há riscos ao produtor?

O fenômeno La Niña, que influenciou significativamente o clima brasileiro em 2021, ainda continua, embora outras variáveis podem ser mais expressivas nos próximos meses, de maneira a amenizar os efeitos das condições provenientes do Pacífico Central.

“No verão, os outros fatores se somaram ao La Niña e prejudicaram o Centro-Sul do país. Embora o fenômeno persista neste outono, até mais forte do que no verão, o clima foi favorável ao Centro-Sul brasileiro devido a outros fatores relacionados ao Atlântico e a variáveis de teleconexão”, comenta Nascimento.

Segundo o especialista, o inverno brasileiro ainda estará sob domínio do La Niña, com impactos menores por conta da influência dessas outras variáveis. O frio excessivo dos últimos dias pode estar associado ao fenômeno, de maneira que as culturas semeadas tardiamente, com segunda safra plantada depois de 10 de março, podem sofrer um pouco mais.

Ainda assim, a previsão é de chuva para as culturas de inverno nas principais regiões.

O último trimestre do ano ainda é um mistério quanto ao clima. O relatório climático de abril da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) aponta que há 58% de chance de permanência do La Niña durante o verão de 2022/23, um número pouco conclusivo, visto que variações oceânicas são prováveis nos próximos três meses, o que pode interferir na quantidade de chuvas.

Panorama do clima em junho

De imediato, as previsões climáticas para junho indicam ligeira elevação de temperatura, com menos frio do que maio. Chuvas seguem regulares no Sul, centro-sul do Mato Grosso do Sul, assim como no centro-oeste e no sul paulista. Nas principais regiões do Matopiba já não é mais época de chuva, ao contrário do que se pode esperar para o Nordeste, na região entre Sergipe e o litoral do Maranhão, onde haverá regularidade de precipitações.

Nascimento indica que “podemos ter ondas de frio novamente, mas, em princípio, devem ser mais fracas do que a observada na última quinzena de maio.”

Confira a seguir como as previsões climáticas podem interferir nos principais cultivos do país.

Café

As lavouras de café brasileiras seguem em período de colheita até o mês de setembro. As estimativas para a safra 2022 é de uma produção total que soma 53,43 milhões de sacas beneficiadas, para as espécies conilon e arábica, um número 15,3% inferior à safra 2020, último ano de bienalidade positiva, e 12% superior à safra 2021, segundo o último levantamento da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), publicado em maio.

Assim, houve alguma recuperação em relação à 2021, no entanto, os dados não são tão satisfatórios para os cafeicultores. As adversidades climáticas são fatores determinantes para esses resultados. As estiagens e geadas nas principais regiões produtoras levaram à queda de rendimento das plantas, especialmente do café arábica.

Nas palavras de Alexandre Nascimento:

“Devido à bienalidade do café e às geadas do ano passado não devemos ter uma boa safra, e os produtores já estão esperando por isso. O excesso de chuva no início da safra e a escassez de chuva nos últimos meses podem ter agravado um pouco mais a situação.”

Minas Gerais, o maior Estado produtor de café no Brasil, apresenta queda de potencial produtivo do arábica, no entanto, a produção nacional de café conilon segue com incremento, atingindo recorde de produção. Esse resultado está associado às condições climáticas no Espírito Santo, responsável por grande parte da produção de conilon. O Estado foi favorecido por chuvas e temperaturas adequadas para a produção, sem instabilidades que pudessem prejudicar o rendimento.

A performance das lavouras no Paraná também influencia o resultado negativo da safra 2022. Muito afetadas pelas baixas temperaturas em 2021, essas regiões produtoras tiveram um decréscimo de 36,9% na produção.

De maneira geral, a maior parte das regiões produtoras sofreram com excesso de chuvas, o que dificultou a aplicação de medidas fitossanitárias (em especial ao Sul).

Cafeicultores em Minas Gerais aproveitam a trégua de precipitação para realizar o manejo que teve que ser postergado, a fim de controlar patógenos e pragas que incidem com mais força no frio.

O andamento da colheita pode ainda sofrer influência do retorno das chuvas neste inverno.

Milho

Boa parte das lavouras de milho safrinha já se encontra em período de enchimento de grãos ou maturação, mas fatores climáticos, como frio intenso e geadas amplas, podem influenciar a produtividade da cultura.

“Se der mais uma garoada geral seria bom, mas já existem perdas irreparáveis em parte do Cerrado devido à falta de chuva em março e abril”, afirma Nascimento.

Lavouras de Mato Grosso do Sul e Paraná têm bom desenvolvimento pelas condições climáticas adequadas, enquanto a falta de chuvas em Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo durante o mês de maio já é motivo de preocupação.

O 8º Boletim da Safra de Grãos da Conab aponta os impactos causados pelas condições climáticas no Sul para a produção do milho verão. A região já apresentava déficit, com a semeadura tardia. Agora, o processo de colheita também sofre interferência do alto índice pluviométrico e das baixas temperaturas, que dificultam o trabalho no campo. No entanto, as outras regiões do país mostram boas condições climáticas, diminuindo o percentual de queda em relação à safra anterior.

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Cana-de-açúcar

As lavouras de cana no Centro-Sul entraram em período de colheita recentemente. O processo pode ser prejudicado pelo excesso de chuvas nos próximos meses, além de que a previsão de geadas impacta a qualidade do produto final.

O calendário da canavicultura no Nordeste segue com lavouras em fase de desenvolvimento com clima favorável pelas chuvas regulares no leste da região.

Soja

A safra 21/22 de soja se encerrou com queda de produção. Assim, com o início do período de vazio sanitário, produtores se preparam para planejar o manejo das lavouras para o próximo ciclo, com foco no início do plantio na janela ideal, a fim começar a safra 22/23 com o pé direito.

Com as previsões climáticas para o último trimestre do ano ainda incertas, a esperança é de que tenhamos um verão com clima estável, para que a semeadura possa acontecer sem grandes interferências.

Algodão

As lavouras de algodão, em maioria, se encontram no período de formação de maçãs ou maturação. A Conab indica aumento de 19,5% na produção em relação à safra 2020/21.

O meteorologista da Rural Clima conclui que não há nenhum grande impacto climático que pode prejudicar o andamento das lavouras de algodão.

Mudanças climáticas e meio ambiente: qual o contexto meteorológico brasileiro?

A partir da Cop 26 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), ocorrida no final de 2021, muito se fala mundialmente sobre as questões ambientais e as mudanças climáticas. As instabilidades no Brasil foram muito sentidas nos últimos meses, com forte impacto na agricultura.

A OMM (Organização Meteorológica Mundial) publicou recentemente o relatório State of the Global Climate 2021 (Estado do Clima Global 2021), indicando que houve índices negativos em quatro indicadores climáticos críticos para as variações climáticas, em especial no que se refere ao aumento da temperatura, que bate recordes pelo sétimo ano consecutivo.

Segundo a Organização, isso se deve majoritariamente aos efeitos da atividade humana na natureza, com foco de preocupação na escassez hídrica. Com isso em vista, as lideranças mundiais já estipularam novas metas na última Cop, que serão atualizadas no encontro que acontecerá no final deste ano.

Os efeitos disso no Brasil são perceptíveis. O CEMADEN (Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais) publicou um último relatório de secas em abril, indicando que 40% das áreas agrícolas em todo o território nacional sofreram impactos da seca.

Alexandre Nascimento nos conta que

“Já estamos observando reduções significativas de chuva na maior parte dos anos. Neste ano, até que choveu bem no período chuvoso, mas tem ficado evidente que os eventos extremos estão cada vez mais fortes e frequentes: quando chove, chove demais, quando seca, seca demais. Os seus impactos (queimadas, rios secos etc) vimos nos últimos anos em todas as regiões do país.”

Assim, produtores e governos Estaduais e Federal no Brasil precisam ficar atentos, não apenas às previsões climáticas imediatas, mas também às mudanças previstas a longo prazo, além de aplicar cada vez mais medidas sustentáveis nas lavouras, a exemplo do Plano Safra, de maneira a tornar o Brasil referência mundial em agricultura e sustentabilidade.

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