A podridão-cinzenta, causada por Botrytis cinerea, é responsável por perdas expressivas em culturas como morango, uva, tomate e hortaliças, especialmente em ambientes de cultivo protegido. 

Em condições favoráveis, a doença pode comprometer parte relevante da produção, afetando diretamente a rentabilidade e a qualidade dos frutos.  

O impacto econômico é agravado pela rápida evolução da epidemia e pela dificuldade de controle, principalmente devido à resistência do patógeno a diversos grupos de fungicidas. 

A relevância da Botrytis cinerea se intensifica em condições de temperatura amena e alta umidade, frequentes em ambientes de cultivo protegido. Nesses ambientes, a pressão da doença é constante, exigindo estratégias de manejo integradas e preventivas. 

O desafio é ainda maior devido à capacidade do patógeno de sobreviver por longos períodos no solo e em restos culturais, além de infectar diferentes estádios fenológicos das plantas. 

Neste conteúdo, serão abordados os principais sintomas da podridão-cinzenta, o ciclo epidemiológico da Botrytis cinerea, as condições que favorecem a epidemia e as práticas de manejo integrado, com destaque para o controle biológico. 

Ficha rápida: Botrytis cinerea 

Classificação Fungo necrotrófico (filo Ascomycota, família Sclerotiniaceae) 
Hospedeiros É polífago, com registro em mais de 580 gêneros de plantas 
Culturas mais afetadas Morango, uva, tomate e pimentão, principalmente em cultivo protegido 
Estrutura de sobrevivência Escleródios e micélio em restos culturais e no solo 
Classes com resistência relatada Benzimidazóis (FRAC 1), dicarboximidas (FRAC 2), SDHI (FRAC 7), anilinopirimidinas (FRAC 9), estrobilurinas (FRAC 11), fenilpirróis (FRAC 12) e hidroxianilidas (FRAC 17) 
Momentos críticos de proteção Floração, início da maturação e pré-colheita 
Agentes de biocontrole estudados Trichoderma harzianum, Bacillus subtilis, Aureobasidium pullulans e Clonostachys rosea 

Principais pontos 

  • Botrytis cinerea é um fungo (Ascomycota).É polífago, infectando mais de 580 gêneros de plantas. 
  • É um dos patógenos com mais resistência a fungicidas documentada no mundo, com mecanismos contra pelo menos sete classes de fungicidas. 
  • A floração é um dos momentos mais críticos para o controle; em uva, a proteção também deve contemplar a compactação do cacho, o início da maturação e a pré-colheita. 
  • Biológicos como Trichoderma harzianum e Bacillus subtilis devem ser posicionados entre as aplicações químicas, não como substitutos em alta pressão. 

Botrytis cinerea: agente, epidemiologia e fatores de risco 

Botrytis cinerea é um fungo necrotrófico, amplamente distribuído em regiões produtoras de morango, uva, tomate e hortaliças.  

O patógeno é considerado polífago, infectando mais de 580 gêneros de plantas, o que o torna um dos principais desafios fitossanitários em sistemas intensivos de produção.  

Trata-se de um patógeno cosmopolita, presente em praticamente todas as regiões onde há plantas hospedeiras. 

No Brasil, a podridão-cinzenta é mais frequente em regiões onde as condições de temperatura amena e alta umidade relativa favorecem o desenvolvimento do patógeno.  

O cultivo protegido, embora ofereça vantagens para a produção, cria um ambiente propício para a epidemia, especialmente quando há deficiência de ventilação e excesso de molhamento foliar. As culturas mais afetadas são morango, uva, tomate e pimentão, com maior incidência durante a floração e maturação dos frutos. 

A epidemiologia da doença está diretamente relacionada à presença de escleródios e micélio em restos culturais e no solo, que funcionam como fonte primária de inóculo. 

A produção abundante de conídios permite a rápida dispersão do patógeno por correntes de ar, respingos de água e durante os tratos culturais e a colheita, inclusive em ambientes protegidos. 

Por se tratar de uma doença policíclica, a podridão-cinzenta permite múltiplas infecções ao longo do ciclo da cultura. 

Close de dois morangos silvestres presos ao mesmo talo: um está totalmente coberto por um mofo cinza e felpudo, típico da podridão-cinzenta (Botrytis), enquanto o outro, ainda vermelho, tem uma pequena mosca pousada na lateral. Ao fundo, folhagem verde desfocada.

Como a Botrytis cinerea compromete a produtividade e a qualidade das culturas 

A Botrytis cinereaatua como patógeno necrotrófico, matando o tecido vegetal antes de colonizá-lo, por meio da produção de toxinas e enzimas degradativas. Os principais alvos são tecidos senescentes, flores e frutos maduros, que apresentam menor resistência.  

Em morango, a infecção ocorre preferencialmente nas flores, podendo permanecer latente até a maturação dos frutos, que apresentam lesões de coloração marrom, posteriormente cobertas por mofo cinzento.  

Em uva, a doença se manifesta principalmente nos cachos, com manchas circulares de coloração lilás nas bagas que evoluem para tons pardos, recobertas por mofo acinzentado, podendo comprometer o cacho inteiro em condições favoráveis. Em tomate e pimentão, as lesões ocorrem em folhas, frutos e caules, com cancros que se iniciam, frequentemente, a partir de ferimentos de desbrota e desfolha. 

O impacto produtivo é significativo, com relatos de perdas superiores a 50% em morango, sob condições favoráveis à doença. Além da redução da produtividade, a qualidade dos frutos é comprometida, inviabilizando a comercialização e aumentando o descarte. A rápida evolução da epidemia e a dificuldade de controle agravam o cenário, especialmente em sistemas de produção intensiva. 

Táticas para suprimir a podridão-cinzenta 

O manejo da Botrytis cinerea exige uma abordagem integrada, combinando práticas culturais, uso racional de fungicidas e adoção de agentes biológicos. A resistência do patógeno a diversos grupos de fungicidas químicos reforça a necessidade de diversificação das estratégias de controle. 

Prevenção : práticas culturais que fazem a diferença 

A base do manejo está na eliminação de restos culturais e na promoção da ventilação em ambientes protegidos. A redução da umidade foliar, por meio de irrigação por gotejamento e desfolha criteriosa, com remoção de folhas senescentes. 

Evitar ferimentos nas plantas e realizar a desinfecção de ferramentas também contribuem para a redução do inóculo. O uso de cultivares menos suscetíveis é prática recomendável; a rotação de culturas tem efeito complementar, limitado pela ampla gama de hospedeiros do patógeno 

Alternância de modos de ação:estratégia para prolongar a vida útil das moléculas 

Há resistência relatada, em diversas regiões produtoras, a benzimidazóis (FRAC 1), dicarboximidas (FRAC 2), SDHIs (inibidores da succinato desidrogenase , FRAC 7), anilinopirimidinas (FRAC 9), estrobilurinas (FRAC 11), fenilpirróis (FRAC 12) e hidroxianilidas (FRAC 17). 

Por isso, a rotaçãodos mecanismos de ação é indispensável. 

O uso de fungicidas multissítios ( grupo M do FRAC), como captana e clorotalonil, respeitado o registro para cada cultura, deve ser priorizado como base do programa de manejo. 

O intervalo entre aplicações deve seguir o indicado em bula, com monitoramento das condições climáticas para ajustar o momento de aplicação em períodos de alta pressão, com atenção especial à floração e, em uva, também à compactação do cacho, ao início da maturação e ao período de pré-colheita. 

Controle biológico: aliados indispensáveis no manejo sustentável 

O controle biológico da Botrytis cinerea tem ganhado destaque entre as ferramentas do MID, especialmente em sistemas de cultivo protegido. Diversos agentes biológicos apresentam eficácia comprovada na redução do inóculo e na supressão do patógeno. 

  • Coniothyrium minitans: coloniza tecidos senescentes e restos culturais, competindo com o patógeno e reduzindo a esporulação e a produção de inóculo. 
  • Trichoderma harzianum: atua por competição, antibiose, micoparasitismo e indução de resistência, com uso preventivo em aplicações na parte aérea, especialmente em flores e frutos 
  • Bacillus subtilis: produz lipopeptídeos que atuando na supressão do patógeno em folhas e frutos, além de induzir resistência na planta.biofungicidas contra mofo-brancoAureobasidium pullulans: fungo leveduriforme antagonista que compete por nutrientes e espaço, dificultando a colonização pelo patógeno. 

A integração dos biológicos ao programa de manejo é fundamental para prolongar a vida útil dos fungicidas e a sustentabilidade do sistema produtivo. 

Resultados do manejo integrado da podridão-cinzenta 

A adoção do manejo integrado, com ênfase no controle biológico, tem proporcionado resultados consistentes na redução da incidência e severidade da podridão-cinzenta.  

Ensaios realizados em ambientes protegidos demonstram que a combinação de práticas culturais, rotação de fungicidas e uso de agentes biológicos pode reduzir de forma expressiva a ocorrência da doença, além de preservar a qualidade dos frutos e prolongar a vida útil dos produtos químicos disponíveis. 

Orientações técnicas para enfrentar a Botrytis cinerea no campo 

  • Priorizar a irrigação por gotejamento e evitar o molhamento foliar excessivo. 
  • Adotar a rotação de mecanismos de ação, intercalando grupos FRAC e priorizando multissítios como base do programa. 
  • Posicionar agentes biológicos nas aplicações intermediárias, conforme recomendação técnica e registro no MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária). 
  • Monitorar constantemente as condições climáticas e ajustar o manejo conforme a pressão da doença. 
  • Consultar sempre a bula dos produtos e seguir as doses e período de carência indicados em bula. 

O controle da Botrytis cinerea exige conhecimento técnico, planejamento e integração de diferentes estratégias. O manejo integrado, com destaque para o controle biológico, é o caminho para proteger a produtividade e a qualidade das culturas. 

 A atualização constante e o uso racional das ferramentas disponíveis são essenciais para enfrentar o desafio da resistência e preservar a rentabilidade do sistema produtivo. 

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Perguntas frequentes 

1. Botrytis cinerea é um fungo ou um oomiceto? 

É um fungo, do filo Ascomycota, família Sclerotiniaceae — não é um oomiceto. Essa classificação importa porque a escolha do fungicida depende do grupo do patógeno. 

2. Quais culturas são mais afetadas pela podridão-cinzenta? 

Morango, uva, tomate e pimentão, principalmente em ambientes de cultivo protegido com alta umidade e ventilação deficiente. 

3. Por que a Botrytis cinerea é tão difícil de controlar com fungicidas? 

Porque já desenvolveu resistência a múltiplos grupos FRAC, como benzimidazóis, dicarboximidas, SDHIs, estrobilurinas, entre outros. 

4. Qual o momento mais crítico para proteger a lavoura?

A floração é um dos momentos mais críticos. Em uva, a proteção também deve contemplar a compactação do cacho, o início da maturação e o período de pré-colheita. 

5. Biológicos substituem o fungicida no controle da Botrytis? 

Não isoladamente. Trichoderma harzianum, Bacillus subtilis e outros agentes biológicos devem ser posicionados dentro do programa de manejo integrado.. 

6. Como reduzir a pressão da doença com práticas culturais? 

Eliminando restos culturais, promovendo ventilação adequada, usando irrigação por gotejamento, evitando ferimentos nas plantas e adotando cultivares menos suscetíveis.