A sojicultura brasileira enfrenta desafios fitossanitários constantes, e a presença de Cercospora kikuchii tem se tornado uma preocupação crescente para produtores em diversas regiões do país. 

Este patógeno impacta diretamente a produtividade e, crucialmente, a qualidade da semente, afetando a viabilidade de futuras safras. 

Este conteúdo aprofunda na biologia de Cercospora kikuchii, seus impactos na cultura da soja e, principalmente, explora as evidências sobre a eficácia dos biofungicidas para o controle dessa doença. 

Ficha rápida: Cercospora kikuchii na soja 

Nome científico Cercospora kikuchii 
Partes afetadas Folhas, hastes, vagens e sementes 
Condições favoráveis Alta umidade relativa, temperaturas elevadas, molhamento foliar prolongado 
Toxina envolvida Cercosporina, responsável pelo bronzeamento das lesões 
Principal dano à semente Mancha púrpura da semente, afetando germinação e vigor 
Resistência documentada Benzimidazóis (mutação E198A) e estrobilurinas/IQo (mutação G143A) 
Agentes biológicos avaliados Bacillus subtilis e Trichoderma harzianum 

Principais pontos 

  • Cercospora kikuchii afeta folhas, hastes, vagens e sementes da soja, com maior severidade no período reprodutivo. 
  • O patógeno produz a toxina cercosporina, responsável pelo bronzeamento característico das lesões. 
  • O principal dano é a mancha púrpura da semente, que afeta germinação, vigor e valor comercial. 
  • Já foram documentados casos de resistência a benzimidazóis e a fungicidas IQo (estrobilurinas). 
  • Bacillus subtilis e Trichoderma harzianum são os agentes biológicos mais promissores avaliados. 
  • Biofungicidas devem ser aplicados preventivamente e, em cenários de resistência, complementar o controle químico. 

O que é Cercospora kikuchii e como ela afeta a soja? 

Cercospora kikuchii é um fungo fitopatogênico de importância crescente na cultura da soja, especialmente nas principais regiões produtoras do Brasil, como Paraná, Mato Grosso e Rio Grande do Sul. 

Isso porque a sua ocorrência pode comprometer significativamente a sanidade e a produtividade das lavouras, abrangendo folhas, hastes, vagens e sementes. 

Biologia do patógeno, ciclo da doença e condições favoráveis 

Cercospora kikuchii se desenvolve em condições de alta umidade relativa, temperaturas elevadas e molhamento foliar prolongado. O ciclo da doença tem início com esporos presentes em restos culturais infectados ou sementes contaminadas, disseminados pelo vento e chuva. 

O patógeno penetra nos tecidos da planta e produz a toxina cercosporina, que contribui para a virulência da doença e o bronzeamento característico das lesões. 

O fungo interage com a soja através de proteínas efetoras que suprimem a imunidade do hospedeiro, facilitando a infecção. 

O período reprodutivo da soja é particularmente crítico, pois o fungo afeta diretamente a formação e o enchimento dos grãos. 

Sintomas, impacto na qualidade das sementes e na produtividade 

Nas folhas, surgem pontuações escuras de coloração castanho-avermelhada que gradualmente coalescem, formando grandes manchas. Essas lesões podem levar ao crestamento foliar, desfolha prematura e, em casos severos, ao bronzeamento generalizado da planta, impactando diretamente a capacidade fotossintética. 

O impacto mais preocupante reside na capacidade de infectar as sementes, causando a mancha púrpura da semente. Esta condição afeta a germinação, o vigor e o valor comercial das sementes. 

Como é feito o controle convencional de Cercospora kikuchii? 

O tratamento de sementes de soja pode reduzir significativamente a incidência da doença em plântulas. Para o controle foliar, a aplicação de triazóis em associação com multissítios é recomendada nas fases finais do ciclo. 

Resistência a fungicidas e desafios no controle químico 

A emergência de resistência a fungicidas é um dos maiores desafios na sojicultura brasileira. Para Cercospora kikuchii, já foram documentados casos de resistência a benzimidazóis (como carbendazim), associados a mutações no gene da β-tubulina, como E198A. 

Adicionalmente, isolados de Cercospora spp. com a mutação G143A no citocromo b exibem resistência a fungicidas IQo (estrobilurinas), indicando que múltiplas classes estão sob pressão de seleção. 

Essa resistência não apenas reduz a eficácia dos produtos existentes, mas também limita as opções de manejo químico para os produtores. 

Diante desse cenário, a busca por práticas integradas complementares ao manejo químico torna-se indispensável para um manejo sustentável de Cercospora kikuchii. 

O que dizem as evidências sobre biofungicidas no controle de Cercospora kikuchii? 

A ascensão dos biofungicidas representa uma evolução significativa nas estratégias de manejo de doenças na agricultura moderna. Esses produtos oferecem modos de ação diversos, contribuindo para a sustentabilidade e resiliência dos sistemas agrícolas. 

Principais agentes biológicos avaliados para o controle dessa doença 

Entre os agentes biológicos mais promissores, destacam-se bactérias do gênero Bacillus, como Bacillus subtilis, e fungos do gênero Trichoderma, como Trichoderma harzianum. 

Esses microrganismos atuam por diferentes modos de ação: competição por espaço e nutrientes, produção de metabólitos secundários com atividade antifúngica (antibiose) e indução de resistência sistêmica na planta hospedeira. 

Condições em que o biocontrole deve complementar o controle químico 

Em cenários de resistência a fungicidas, os biofungicidas tornam-se ferramentas indispensáveis, pois oferecem modos de ação distintos que não estão sujeitos aos mesmos mecanismos de resistência dos químicos, ajudando a aliviar a pressão de seleção sobre os produtos convencionais. 

O uso em associação com fungicidas químicos é recomendado para potencializar a eficácia geral do programa de manejo, promovendo uma proteção mais robusta e duradoura. 

Modo de ação dos biofungicidas e fungicidas químicos no controle de Cercospora kikuchii 

Agente/tipo de produto Modo de ação principal 
Biofungicidas Competição, antibiose, indução de resistência 
Fungicidas químicos Inibição de biossíntese de ergosterol 
Fungicidas químicos multissítio Multi-sítio, inibição de várias enzimas 
Tratamento de sementes (químico) Proteção inicial contra patógenos de semente/solo 

Fonte: literatura científica de fitopatologia; Embrapa; dados de eficácia indicativos e variam conforme cepa, solo, clima e pressão de inóculo. 

Como integrar biofungicidas ao programa de manejo de doenças da soja? 

A integração de biofungicidas no programa de manejo da soja é uma estratégia moderna e eficaz para manejar patógenos como Cercospora kikuchii, promovendo a sustentabilidade da lavoura. 

Não se trata de uma substituição completa dos métodos convencionais, mas de uma integração inteligente que visa maximizar a proteção da cultura e reduzir a pressão de seleção sobre os fungicidas químicos. 

Vagens verdes de soja penduradas na planta, em close-up

Posicionamento do biofungicida no programa 

A maioria dos biofungicidas, especialmente os à base de Bacillus spp., são mais eficazes quando aplicados de forma preventiva. Ao serem introduzidos antes da infecção do patógeno, eles colonizam a superfície da planta ou o solo, estabelecendo uma barreira protetora e ativando os mecanismos de defesa naturais da soja. 

Além do uso preventivo, os biofungicidas podem ser empregados em esquema de rotação com fungicidas químicos de diferentes modos de ação, prática fundamental para evitar o desenvolvimento de resistência. 

A decisão sobre o posicionamento deve considerar o histórico da área, as condições climáticas e o estágio de desenvolvimento da cultura. 

Compatibilidade com fungicidas químicos e outros biológicos 

É vital sempre consultar a bula e, se necessário, realizar testes de compatibilidade entre os fungicidas químicos e biofungicidas. 

No que tange aos inoculantes, como os à base de Bradyrhizobium para fixação biológica de nitrogênio, a compatibilidade é geralmente boa. A sinergia entre biofungicidas e inoculantes pode inclusive potencializar os benefícios para a planta, promovendo um ambiente radicular mais saudável e um melhor desenvolvimento da cultura da soja. 

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Perguntas frequentes 

1. O que é Cercospora kikuchii? 

É um fungo fitopatogênico que afeta folhas, hastes, vagens e sementes da soja, especialmente em regiões como Paraná, Mato Grosso e Rio Grande do Sul. 

2. Quais os principais sintomas de Cercospora kikuchii na soja? 

Pontuações escuras castanho-avermelhadas nas folhas que coalescem, crestamento foliar, desfolha prematura e, na semente, a mancha púrpura. 

3. Como a mancha púrpura da semente afeta a próxima safra? 

Reduz a germinação, o vigor e o valor comercial das sementes contaminadas. 

4. Já existe resistência de Cercospora kikuchii a fungicidas? 

Sim, casos documentados de resistência a benzimidazóis (mutação E198A) e a fungicidas IQo/estrobilurinas (mutação G143A). 

5. Quais agentes biológicos são mais promissores contra essa doença? 

Bacillus subtilis e Trichoderma harzianum, que atuam por competição, antibiose e indução de resistência sistêmica. 

6. Biofungicidas substituem o controle químico de Cercospora kikuchii? 

Não. Devem complementar o manejo químico, sendo especialmente indispensáveis em cenários de resistência a fungicidas. 

7. Quando aplicar biofungicidas para melhor eficácia? 

De forma preventiva, antes da infecção do patógeno, permitindo a colonização da planta e a ativação das defesas naturais. 

8. Biofungicidas são compatíveis com inoculantes de Bradyrhizobium? 

Geralmente sim, e essa combinação pode até potencializar os benefícios para a planta e o desenvolvimento radicular.