A produção de cacau no Brasil passa por um momento de transformação, marcado por desafios históricos, adaptação climática e busca por sustentabilidade. Entenda o cenário atual da cacauicultura, entraves da cadeia produtiva e perspectivas.

No dia 26 de março, celebramos o Dia do Cacau, uma data para refletir sobre a importância dessa cultura para o Brasil, que vai muito além da produção do chocolate. O cacau tem um papel fundamental no desenvolvimento rural, sendo um símbolo de resiliência e inovação, enfrentando desafios históricos e superando adversidades ao longo do tempo. Sua trajetória é marcada por momentos de crescimento, crises e reinvenções, consolidando-se como uma cultura-chave para o desenvolvimento sustentável no país. 

A seguir, confira um panorama atual da produção de cacau no Brasil, os desafios que a cadeia produtiva ainda enfrenta e a necessidade de adaptação às mudanças climáticas. 

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Breve histórico da cacauicultura no Brasil

A história da cacauicultura no Brasil é marcada por ciclos de expansão e retração, refletindo a dinâmica do mercado global e, principalmente, os desafios fitossanitários internos. O cacau foi introduzido no país no século XVII e prosperou na Bahia, que se tornou o principal Estado produtor e um gigante mundial no início do século XX.  

Essa “era de ouro” impulsionou a economia regional e atraiu investimentos, solidificando a cacauicultura brasileira como uma potência. Contudo, entre o final da década de 1980 e o início dos anos 1990, a cultura foi devastada pela chegada da vassoura-de-bruxa (Moniliophthora perniciosa), uma doença fúngica que dizimou lavouras, reduzindo drasticamente a produção e gerando uma crise socioeconômica profunda na região. 

Os últimos anos têm sido de recuperação gradual e de diversificação geográfica.  

Após a crise, a pesquisa e o desenvolvimento, liderados por instituições, como a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC) e a Embrapa, foram fundamentais para o desenvolvimento de variedades resistentes e novas técnicas de manejo.  

Embora a produção total ainda esteja abaixo dos níveis pré-vassoura-de-bruxa, há um avanço notável na produtividade por área e na qualidade das amêndoas, impulsionado pela adoção de sistemas agroflorestais com cacau e pelo foco no cacau fino e de aroma. 

Maiores regiões produtoras de cacau no Brasil 

O mapa da produção brasileira de cacau passou por uma significativa reconfiguração nas últimas décadas, com a ascensão de novas regiões produtoras de cacau e a recuperação das áreas tradicionais. Historicamente, o Estado da Bahia dominou a cena, especialmente no sul, onde se concentram grandes fazendas de cacau. Embora ainda seja um produtor relevante, sua hegemonia foi desafiada pelo avanço de outras localidades. 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes à produção de 2024, o Estado do Pará consolidou-se como o maior produtor nacional, sendo responsável por aproximadamente 54,5% do total de amêndoas produzidas no país. 

A Bahia, embora tenha sido superada em volume, mantém sua importância estratégica, contribuindo com cerca de 39,2% da produção brasileira de cacau e com um crescente foco em cacau de alta qualidade e em sistemas agroflorestais. 

Espírito Santo emerge como um produtor significativo, com 4,1% da produção nacional, destacando-se pela busca por sustentabilidade e pelo cultivo em consórcio. Rondônia também figura entre os Estados com expansão da área plantada, representando cerca de 1,3% da produção.  

Essa diversificação geográfica aumenta a resiliência da cacauicultura nacional frente a desafios climáticos e fitossanitários, garantindo uma base produtiva mais robusta e distribuída. 

Vagens de cacau alaranjadas e maduras crescem diretamente nos galhos de uma árvore cercada por vegetação tropical densa.

Panorama da produção de cacau em 2024 e 2025 no Brasil 

A produção de cacau no Brasil em 2024 e 2025 reflete um cenário de desafios e oportunidades para o setor.  

Em 2024, o Brasil registrou uma produção de aproximadamente 287,8 mil toneladas de cacau, segundo dados do IBGE. Esse volume representa uma leve estabilidade em relação aos anos anteriores, mas ainda há uma queda significativa comparado aos melhores anos da produção no país.  

O desempenho é reflexo de vários fatores, como a variabilidade climática e a incidência de doenças que impactam a produtividade das lavouras. 

Durante o primeiro semestre de 2025, a produção apresentou uma leve estagnação, com 58.188 toneladas de amêndoas recebidas pela indústria, número semelhante ao de 2024, mas muito abaixo do pico de 2023.  

A indústria de cacau também enfrentou desafios, como a queda de 16,6% na moagem de cacau no terceiro trimestre de 2025, em comparação com o mesmo período de 2024. A moagem no país foi de 144 mil toneladas até o terceiro trimestre de 2025, o que representa uma retração de 15,1% frente ao ano anterior. Esses percentuais indicam que o setor continua pressionado, principalmente pelas dificuldades climáticas e por questões logísticas. 

No entanto, a perspectiva para os próximos anos é mais otimista. Em 2025, a produção brasileira de cacau passa por um processo de revitalização, com o uso de novas tecnologias e a ampliação das áreas cultivadas, especialmente em regiões que antes não eram tão exploradas para o cultivo. 

A tecnologia e a sustentabilidade se destacam como fatores-chave para impulsionar o setor nos próximos anos, permitindo um aumento na produtividade e na qualidade do cacau produzido. Espera-se que, com essas estratégias, o Brasil consiga melhorar sua competitividade no mercado internacional e recuperar sua posição de destaque na produção de cacau. 

Vagens de cacau vermelhas e maduras crescem diretamente no tronco e galhos de uma árvore em ambiente tropical úmido, cercadas por folhas verdes e vegetação densa. 

Principais desafios da cadeia do cacau

Apesar do otimismo e dos avanços na produção brasileira, a cadeia produtiva do cacau ainda enfrenta uma série de desafios complexos que exigem atenção contínua e estratégias inovadoras. Essas barreiras perpassam aspectos fitossanitários, econômicos, climáticos e sociais, impactando a produtividade do cacau e a competitividade do mercado brasileiro de cacau. 

Doenças e pragas

A vassoura-de-bruxa (Moniliophthora perniciosa) permanece como o principal entrave fitossanitário para a produção de cacau no Brasil. Apesar dos avanços em pesquisa e manejo, a doença ainda exige vigilância constante e investimentos em controle. 

 A Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), através da Cartilha do Cacau, destaca a importância do uso de variedades clonais resistentes, da poda sanitária rigorosa e da eliminação de brotos doentes como medidas essenciais.  

Além dela, outras pragas e doenças, como a podridão parda e a broca-do-fruto, também representam ameaças, exigindo um manejo do cacaueiro integrado e adaptativo. 

Sinais de vassoura-de-bruxa em fruto do cacau.

Flutuação de preços e acesso a mercado 

A volatilidade nos preços internacionais do cacau é um desafio constante para os produtores, que, muitas vezes, sofrem com a imprevisibilidade da renda. O mercado brasileiro de cacau também é influenciado por essa dinâmica global, que afeta a rentabilidade e a capacidade de investimento dos cacauicultores.  

Além disso, o acesso a mercados mais exigentes, que valorizam cacau de qualidade superior e com certificações de sustentabilidade, ainda é limitado para muitos pequenos e médios produtores.  

A articulação em cooperativas e associações pode fortalecer a posição do produtor, facilitando a negociação, o beneficiamento coletivo e o acesso a canais de comercialização mais justos, garantindo uma maior parcela do valor agregado ao produto final. 

Condições climáticas adversas e sustentabilidade 

As mudanças climáticas representam uma ameaça crescente para a produção de cacau no Brasil. A cultura é sensível a variações de temperatura e regimes de chuva, e eventos extremos, como secas prolongadas ou chuvas excessivas, afetam diretamente o manejo do cacaueiro e a produtividade do cacau.  

A busca por sustentabilidade na produção de cacau torna-se, então, não apenas uma exigência ambiental, mas uma estratégia de resiliência.  

Nesse sentido, a adoção e a expansão de sistemas agroflorestais com cacau (SAFs), onde o cacau é cultivado em consórcio com outras espécies florestais e agrícolas, são vitais. Os SAFs: 

  • aumentam a biodiversidade;
  • melhoram a fertilidade do solo;
  • regulam a temperatura e a umidade;
  • oferecem fontes de renda adicionais, tornando as propriedades mais robustas frente às intempéries climáticas e contribuindo para o sequestro de carbono. 

Infraestrutura, tecnologia e mão de obra

Ainda existem lacunas significativas em termos de infraestrutura, acesso a tecnologias e disponibilidade de mão de obra qualificada em muitas regiões produtoras de cacau. Dificuldades no escoamento da produção e ausência de equipamentos modernos para o beneficiamento pós-colheita (fermentação e secagem) podem comprometer a qualidade das amêndoas e o acesso a mercados de maior valor. 

A disseminação de tecnologias digitais, como sensores de clima e umidade do solo e plataformas de gestão agrícola, ainda precisa ser ampliada para otimizar o manejo do cacaueiro e a produtividade do cacau.  

Junto a isso, a capacitação e a retenção de mão de obra qualificada são desafios constantes, exigindo investimentos em educação e em melhores condições de trabalho no campo. 

Perspectivas para os próximos anos

As perspectivas para a produção de cacau no Brasil nos próximos anos são extremamente positivas, impulsionadas por um conjunto de fatores que sinalizam um futuro de crescimento e maior valor agregado.  

O Brasil possui um potencial inquestionável, com vastas áreas aptas ao cultivo, condições climáticas favoráveis em diversas regiões produtoras de cacau e uma genética diversificada, que permite a seleção de variedades de alta produtividade do cacau. A demanda global pelo alimento, especialmente por cacau fino e de aroma, tem crescido de forma consistente, oferecendo um nicho de mercado lucrativo para a cacauicultura brasileira. 

A aposta na sustentabilidade na produção de cacau é um dos pilares desse futuro promissor. Os sistemas agroflorestais não só melhoram a resiliência das lavouras em relação às mudanças climáticas, mas também atendem às exigências de consumidores e indústrias que buscam produtos com menor impacto ambiental e social. 

Vagens de cacau maduras em tons avermelhados pendem dos galhos de uma árvore em meio à vegetação.

O investimento em pesquisa e desenvolvimento, com a criação de clones mais produtivos e resistentes a doenças, aliado à difusão de tecnologias para o manejo do cacaueiro e o pós-colheita, será crucial para otimizar a eficiência do uso da água no campo e a qualidade das amêndoas.  

O objetivo de reconquistar a autossuficiência e, eventualmente, retomar a posição de grande exportador de cacau de alta qualidade parece cada vez mais ao alcance, consolidando o Brasil como um ator importante no mercado brasileiro de cacau e global. 

Esses desafios, embora complexos, estão sendo enfrentados com inovação, pesquisa e a busca por um manejo do cacaueiro mais eficiente e consciente. 

A Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável. 

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