A capacidade da França de exportar trigo para o mercado mundial pode se esgotar dentro de uma década. O alerta partiu de um grupo de produtores do país nesta terça-feira, em meio a uma tendência de queda nas safras associada a pressões econômicas e climáticas cada vez mais persistentes.
A França é hoje a maior produtora de trigo da União Europeia. Ainda assim, o país colheu 31,9 milhões de toneladas de trigo “soft”, sua principal variedade, neste ano, segundo o Ministério da Agricultura francês. O volume representa uma queda de 4% em relação a 2025, o que reforça a preocupação do setor com os próximos ciclos.
Produção de trigo recua desde o recorde de 2015
O trigo tem sido, até aqui, menos afetado pelo calor extremo e pela seca do que outras culturas, como o milho. Mesmo assim, a queda registrada neste ano dá continuidade a um declínio constante que já dura anos.
Segundo a Associação Geral de Produtores de Trigo (AGPB), a produção francesa vem recuando desde a safra recorde de 2015, quando o país colheu cerca de 41 milhões de toneladas. Essa diferença acumulada ao longo de uma década ilustra a magnitude da retração enfrentada pelo setor.
Excedente de exportação de trigo francês pode desaparecer até 2036
Caso essa tendência de queda continue no mesmo ritmo observado nos últimos anos, a AGPB projeta uma perda adicional de 6 milhões de toneladas na produção de trigo “soft” até 2036. Esse número chama atenção porque equivale justamente ao excedente de exportação previsto pela França para mercados fora da União Europeia nesta safra.
Na prática, isso significa que o país corre o risco de perder, em uma década, exatamente o volume que hoje sustenta sua presença como exportador global de trigo.
Clima mais seco e renda pressionada afastam produtores dos grãos
Dois fatores combinados explicam boa parte dessa trajetória:
- O clima mais quente e seco, que tem reduzido os rendimentos das lavouras francesas;
- A queda na renda do produtor, que levou muitos a destinar menos área ao cultivo de grãos, movimento mais evidente em algumas regiões do sul e do centro do país.
Esse cenário financeiro é especialmente delicado. Segundo a AGPB, os produtores de grãos devem registrar renda negativa pelo quarto ano consecutivo em 2026. O motivo é o aumento nos custos dos fertilizantes, que tem anulado boa parte da recuperação observada nos preços agrícolas ao longo do ano.
Ajuda do governo é considerada insuficiente pelo setor
Diante desse quadro, o governo francês anunciou um pacote de ajuda de 1 bilhão de euros, o equivalente a cerca de US$ 1,16 bilhão, destinado a compensar perdas relacionadas ao clima. A AGPB, no entanto, classificou o valor como insuficiente diante da dimensão dos desafios enfrentados pelo setor, posição compartilhada por outras organizações agrícolas do país.
Para o longo prazo, a entidade defende uma mudança estrutural na política agrícola europeia. A proposta central inclui:
- A adoção de subsídios variáveis pela União Europeia;
- Mais suporte aos agricultores em momentos de preços baixos;
- Menos suporte quando o mercado estiver mais favorável, equilibrando o gasto público ao longo dos ciclos.
Entidade critica ampliação da cota de importação da Ucrânia
Outro ponto sensível para os produtores franceses envolve a política comercial da União Europeia com a Ucrânia. A AGPB se posiciona contra uma eventual ampliação da cota de importação de trigo ucraniano pelo bloco.
Segundo Eric Thirouin, presidente da entidade, essa ampliação poderia pressionar os preços do trigo na Europa, repetindo um efeito já observado durante o período mais intenso da guerra entre Rússia e Ucrânia. Para os produtores franceses, esse é mais um fator de risco em um momento no qual o setor já enfrenta dificuldades para manter sua posição no mercado internacional.
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