A implantação de canaviais entre abril e agosto pede atenção redobrada a um problema recorrente nesse período: a podridão abacaxi. Causada pelo fungo Thielaviopsis paradoxa, a doença apodrece internamente colmos e gemas dos toletes recém-plantados, dificultando a brotação já nas primeiras semanas após o plantio. O risco é maior na cana-planta, já que um estande inicial abaixo do esperado tende a reduzir o perfilhamento e comprometer a produtividade dos cortes seguintes. 

Como identificar a podridão abacaxi no canavial 

O primeiro sinal costuma ser a formação irregular da lavoura: enquanto parte dos toletes brota normalmente, outros não emitem gema alguma, deixando falhas nas linhas de plantio. Como essa ausência de brotação também pode ter outras causas, como estiagem, profundidade inadequada de plantio ou mau contato entre solo e tolete, a confirmação da doença exige uma checagem mais próxima. Alguns sinais ajudam a diferenciar o quadro: 

  • tecido interno do tolete com coloração marrom-escura a quase preta, por vezes úmido ou encharcado; 
  • odor doce e azedo, semelhante ao de abacaxi fermentado, que dá nome à doença; 
  • gemas escurecidas, murchas ou necrosadas, sem capacidade de brotar. 

Quando os sintomas não são conclusivos, a recomendação é coletar amostras e enviá-las a um laboratório ou instituição de pesquisa para confirmar o agente causador. 

Ferimentos e mudas debilitadas aumentam o risco 

O fungo está presente no solo, em restos de cultura e em material de plantio contaminado, entrando nos colmos principalmente por ferimentos causados no corte, no transporte ou no próprio plantio. Equipamentos que provocam quebras ou rachaduras nos colmos elevam esse risco, assim como o uso de mudas de soqueiras velhas ou de talhões com histórico de falhas. 

Não há um único erro de manejo apontado como causa isolada: mudas com baixa qualidade sanitária, ferimentos mecânicos, solo compactado, drenagem deficiente e falta de umidade após o plantio se somam para aumentar a vulnerabilidade dos toletes. O tempo entre o corte da muda e seu plantio também pesa, já que colmos expostos por muito tempo ao calor e à seca perdem umidade e ficam mais suscetíveis à contaminação. 

Impacto pode se estender por vários cortes 

O efeito imediato da doença é a redução do número de plantas por metro de linha, o que reduz também o perfilhamento e, consequentemente, o volume de colmos disponíveis para colheita. Como o estande inicial molda toda a formação da lavoura, as falhas tendem a persistir nos cortes seguintes, afetando o potencial produtivo do talhão por vários anos. 

Com uma produção menor absorvendo os mesmos custos de preparo do solo, mudas, plantio e insumos, o custo por tonelada tende a subir, podendo levar, em casos mais graves, à necessidade de replantio ou reforma antecipada da área. Essa decisão deve levar em conta o percentual e a distribuição das falhas nas linhas, o custo da nova operação, a perda de produtividade esperada e o número de cortes ainda planejados para o canavial, sempre com apoio de um engenheiro agrônomo. 

Prevenção começa antes do plantio 

Como os prejuízos causados pelas falhas dificilmente são revertidos depois da implantação do canavial, as medidas preventivas seguem sendo o caminho mais eficiente. Entre os principais cuidados estão: 

  • Selecionar mudas sadias, priorizando colmos de áreas jovens e produtivas, sem histórico relevante de podridões ou falhas; 
  • Regular os equipamentos de colheita, preparo de mudas e plantio para reduzir ferimentos nos colmos e nas gemas; 
  • Tratar os toletes com produtos registrados, seguindo rótulo, bula e receituário agronômico quanto a dose, forma de aplicação e momento do tratamento; 
  • Garantir boa cobertura do produto e reduzir o intervalo entre o tratamento e o plantio. 

Condições do solo e monitoramento fazem diferença 

Solos compactados dificultam o desenvolvimento de raízes e brotos, prolongando o período de vulnerabilidade dos toletes. Problemas de drenagem podem acelerar a deterioração de material já enfraquecido, enquanto o contato insuficiente entre solo e tolete favorece bolsões de ar e estresse hídrico logo no início do ciclo. Por isso, o fechamento do sulco deve assegurar bom contato com o material plantado, evitando tanto o encharcamento quanto o ressecamento excessivo. 

Reduzir o tempo entre corte e plantio também ajuda: planejar a sequência dos talhões para que lotes com mudas de melhor qualidade sejam plantados rapidamente evita que o material fique armazenado por muitos dias. Nas primeiras semanas após o plantio, acompanhar a uniformidade da brotação e comparar o número de plantas emergidas com a meta de estande da variedade permite agir cedo diante de qualquer sinal de falha. 

O mapeamento de áreas afetadas, o registro das práticas adotadas e dos sintomas observados, além da rotação de áreas de produção de mudas e do manejo de restos culturais, completam um conjunto de cuidados que ajuda a reduzir a recorrência da podridão abacaxi nas safras seguintes. 

Todo tratamento fitossanitário deve seguir as exigências legais e as recomendações de segurança dos rótulos e bulas, incluindo uso de equipamentos de proteção individual, preparo correto da calda e descarte adequado das embalagens. As orientações aqui apresentadas têm caráter informativo e não substituem a avaliação de um engenheiro agrônomo em condições reais de campo. 

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