Conab projeta aumento do consumo interno e menor exportação de óleo; Abiove prevê processamento recorde em 2027, enquanto eventual adoção do B16 ainda depende de decisão oficial. 

O esmagamento de soja no Brasil pode ganhar força em 2027, diante do crescimento esperado do consumo interno de óleo e da demanda por biodiesel. A mudança ocorre enquanto a produção nacional deve avançar pouco: a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima 181,62 milhões de toneladas para a safra 2026/27, alta de 0,7% ante o ciclo anterior. 

O contraste entre oferta e demanda aumenta a importância do destino dado ao grão. Mais processamento pode ampliar a disponibilidade de farelo e óleo no país, mas também intensifica a disputa entre a indústria doméstica e os exportadores pela soja disponível. O resultado dependerá do tamanho efetivo da safra, das condições de mercado e das decisões sobre a mistura de biodiesel. 

Esmagamento de soja no Brasil ganha relevância no balanço da safra 

No primeiro levantamento da safra 2026/27, divulgado em outubro, a Conab projetou crescimento de 3% no consumo interno de soja em grão, de 65,55 milhões para 67,54 milhões de toneladas. Para o óleo de soja, a alta esperada é maior: o consumo doméstico pode avançar 10,4%, de 10,53 milhões para 11,63 milhões de toneladas. 

A produção de óleo, por sua vez, deverá crescer 2,7%, para 12,78 milhões de toneladas, segundo o balanço da Conab. Para acomodar o consumo projetado, a estatal estima redução das exportações do derivado de 1,9 milhão para 1,4 milhão de toneladas, queda de 26,3%. Os estoques finais também podem diminuir, de aproximadamente 785 mil para 637 mil toneladas. 

Esse ajuste é específico ao óleo de soja e não implica necessariamente redução dos embarques do grão. No mesmo balanço, a Conab projeta exportações de soja em grão de 117,97 milhões de toneladas na safra 2026/27, aumento de 1,5% sobre o ciclo anterior. 

Abiove prevê processamento recorde em 2027 

Em projeções para o ano de 2027, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) estima que o esmagamento chegue a 66 milhões de toneladas, alta de aproximadamente 3,8% em relação a 2026. A entidade prevê produção de 13,27 milhões de toneladas de óleo e de 50,8 milhões de toneladas de farelo. 

Nas vendas externas, a Abiove estima exportações de 1,9 milhão de toneladas de óleo e 26,3 milhões de toneladas de farelo em 2027. Para a soja em grão, a previsão é de 113 milhões de toneladas exportadas, recuo de 0,8% ante 2026. Esses números são projeções anuais da associação; não são diretamente equivalentes ao balanço da Conab, que se refere à safra 2026/27 e adota outro recorte e premissas. 

A capacidade instalada brasileira de processamento foi estimada anteriormente em 86,4 milhões de toneladas anuais. Esse número representa capacidade potencial, não o volume efetivamente processado: utilização das plantas depende de localização, custos, margens industriais, logística e disponibilidade regional de grãos. 

Biodiesel pode elevar a necessidade de óleo, mas o B16 é incerto 

A StoneX considera dois cenários para o biodiesel em 2027. Se a mistura obrigatória permanecer em 15% (B15), a consultoria projeta demanda de 10,43 milhões de metros cúbicos de biodiesel e consumo de aproximadamente 8,27 milhões de toneladas de óleo de soja destinado à produção do biocombustível. 

Caso a mistura suba para 16% (B16) a partir de março de 2027, a demanda de biodiesel poderia alcançar 11 milhões de metros cúbicos, avanço de 7% em relação a 2026. Nesse cenário, a necessidade de óleo de soja chegaria a quase 8,75 milhões de toneladas — cerca de 480 mil toneladas a mais que no cenário B15. 

A adoção do B16 não está confirmada. Segundo o relatório da StoneX citado no material, os testes de viabilidade para misturas superiores deveriam ser concluídos em fevereiro de 2027, mas ainda não havia sinalização governamental clara garantindo a mudança em março. A StoneX e a Abiove apresentam estimativas distintas de destinação de óleo porque usam hipóteses próprias; os volumes não devem ser somados nem tratados como uma única projeção. 

O óleo de soja representa aproximadamente 85% das matérias-primas utilizadas na fabricação de biodiesel, conforme dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) citados pela consultoria. A Abiove estima que 7,8 milhões de toneladas de óleo sejam destinadas ao biocombustível em 2027, enquanto os cenários da StoneX apontam quantidades superiores. 

Maior processamento não determina sozinho preços ou exportações 

Uma participação maior da indústria no consumo da soja pode aumentar a concorrência pelo grão, sobretudo nas regiões próximas às unidades esmagadoras. Mas esse movimento não significa, por si só, falta de produto ou valorização automática dos preços recebidos pelos agricultores. Efeitos sobre a comercialização dependem da oferta regional, das margens de processamento, do câmbio, dos fretes e das condições de exportação. 

O quadro reúne uma tendência comum — a maior importância da demanda doméstica pelo complexo soja — e estimativas que precisam ser lidas conforme seus respectivos recortes. A confirmação do tamanho da safra e a decisão sobre a mistura de biodiesel serão determinantes para avaliar como a soja será distribuída entre processamento, consumo interno e exportação. 

Principais números e condicionantes a acompanhar: 

  • Conab: safra de 181,62 milhões de toneladas e consumo doméstico de soja em grão de 67,54 milhões na safra 2026/27. 
  • Conab: consumo de óleo de soja estimado em 11,63 milhões de toneladas e exportações do derivado em 1,4 milhão. 
  • Abiove: esmagamento projetado em 66 milhões de toneladas em 2027; exportações de soja em grão estimadas em 113 milhões. 
  • StoneX: necessidade de óleo para biodiesel de 8,27 milhões de toneladas no cenário B15 ou quase 8,75 milhões no cenário hipotético B16. 
  • B16: cenário condicional, sujeito a testes técnicos e decisão oficial; não tratado como aumento confirmado. 

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