Aos oito anos, ganhou da avó, professora de ciências, um livro sobre a vida dos microbiologistas. Foi por ali, no submundo silencioso do microscópio, que Mariangela Hungria começou a desenhar o futuro. Décadas depois, em 2025, tornou-se a primeira brasileira a receber o World Food Prize, considerado o “Nobel” da agricultura, e em 2026 entrou para a lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista TIME. Pesquisadora da Embrapa Soja, em Londrina, no distrito rural de Warta, ela transformou bactérias do solo em um dos pilares silenciosos da agricultura brasileira.
“Foi vocação”, resume. “Desde criança, eu tinha muita curiosidade pelas ciências, o solo, o ar, as plantas, e também adorava matemática. Era um interesse pelas ciências da vida e pelas exatas ao mesmo tempo.” A avó, lembra, “amava o que ensinava”, levava livros para casa, lia com a neta, montava experiências. Depois dos microbiologistas, veio a biografia de Madame Curie. “Foi ali que percebi que mulher também podia ser cientista.” A interlocutora era a própria avó: “Ela sempre me dizia que eu podia ser o que quisesse.”
A vocação tinha um motor extra. “Era muito impressionada com a fome, com pessoas que batiam à nossa porta pedindo comida, e minha avó dava. Eu pensava: quero fazer alguma coisa que ajude a reduzir a fome no mundo.” Por isso, a escolha pela engenharia agronômica, na ESALQ/USP, em Piracicaba. O choque com o currículo veio rápido. “Você entra querendo produzir alimentos e encontra só matemática, estatística, física, química. É frustrante.” Foi na disciplina de mineralogia, depois nos estudos de decomposição e solos, que percebeu o rumo. “Eu queria biologia, queria vida, microrganismos.”
Sem estágios estruturados na área e com duas filhas pequenas, conseguiu, no último semestre, uma vaga voluntária no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA), ao lado da USP de Piracicaba. Foi ali que conheceu o tema que se tornaria a obsessão científica de uma vida: a fixação biológica de nitrogênio.
A bactéria que alimenta a planta
“O nutriente que todos os seres vivos mais precisam, humanos, animais, plantas, microrganismos, é o nitrogênio, porque ele faz parte do DNA, do RNA, dos aminoácidos, das proteínas e de muitas outras moléculas”, explica. E aí está o paradoxo da natureza: 80% do ar que respiramos é nitrogênio, mas nenhum homem, animal ou planta consegue aproveitá-lo diretamente. “São dois átomos ligados de forma extremamente forte.”
Algumas bactérias, antes mesmo de existirem plantas na Terra, desenvolveram a enzima capaz de quebrar essa ligação e transformar o nitrogênio do ar em uma forma utilizável. Quando as plantas surgiram, formaram parcerias variadas com elas. De maneira lúdica, Mariangela pontua uma explicação sobre a microbiologia: “Algumas são amizades de irmãos, como acontece entre leguminosas e rizóbios: eu te dou todo o nitrogênio de que você precisa, você me dá todo o carbono de que eu preciso.” A soja, cultura à qual Hungria dedicou a carreira, é o exemplo extremo. “Estabeleceu o vínculo mais profundo, irmãos até morrer.”
Os números do impacto são vertiginosos. Estima-se que as tecnologias desenvolvidas pela pesquisadora sejam aplicadas em mais de 40 milhões de hectares no Brasil, gerando economia anual da ordem de US$ 25 bilhões em insumos e evitando mais de 230 milhões de toneladas equivalentes de CO₂ por ano. Hoje, 85% da área de soja cultivada no país recebe inoculante todos os anos, um índice de adoção que não tem paralelo no mundo.
A fronteira da próxima década
A liderança brasileira em soja, milho e cana, conta Hungria, abre agora a oportunidade de levar o mesmo tipo de solução biológica a outras culturas e a perfis variados de produtor. “Temos quase 100 bactérias fixadoras de nitrogênio validadas em experimento de campo, para cerca de 80 leguminosas”, diz. O desafio, observa, é construir caminhos para que essas soluções cheguem a um conjunto mais amplo de cadeias produtivas.
Em palestras recentes à Índia e ao Canadá, percebeu o tamanho da vantagem brasileira. “São 70 anos de atividades de extensão rural. O nosso agricultor está muito preparado para adotar tecnologias.” É essa abertura, defende, que permite ao país liderar globalmente em adoção de microrganismos benéficos.
Produtividade com solo vivo
Hungria vê a agricultura regenerativa como caminho sem volta. “A ciência evoluiu, e hoje conhecemos tecnologias capazes de recuperar o que foi perdido, regenerar, nos aproximar da natureza.” Plantio direto, rotação de culturas, fixação biológica e zoneamento agrícola, pondera, são tecnologias com 20 ou 30 anos de validação científica e de campo. “Temos dados conclusivos mostrando que um solo saudável, manejado em plantio direto, é mais resiliente, e que as plantas conseguem enfrentar melhor os riscos das mudanças climáticas.”
A equação, no entanto, não admite escolhas falsas. “Só haverá produtividade com responsabilidade se houver ciência. É a ciência que indica como deve ser feito.” Cabe à pesquisa, defende, “encontrar os caminhos que maximizem a produção com menor gasto energético e menores emissões”.
Mulher, cientista, brasileira

Os prêmios recentes, diz, carregam uma bandeira maior do que a sua própria trajetória. “Espero ter aberto caminho para que as próximas gerações de mulheres não passem por tudo o que eu passei.” Hoje, observa, a balança virou em parte. “Entre pesquisadoras cientistas, já somos mais de 50%. Mas a bandeira é mais ampla.”
Ela cita uma cadeia de mulheres invisibilizadas dentro da segurança alimentar: agricultoras familiares, donas de hortas domésticas, guardiãs de plantas medicinais, educadoras, merendeiras, comunicadoras. “Não se dá o devido valor a esse papel majoritariamente feminino. Tenho me sentido muito recompensada, porque encontro agricultoras e lideranças de comunidades agrícolas que dizem ter se sentido representadas.”
Há também o orgulho da ciência feita com poucos recursos. “No Brasil, a gente não faz ciência, faz milagre. O mundo inteiro disputa esse prêmio, e nós conseguimos a partir de um distrito de Londrina, da Warta para o mundo. O reconhecimento mostra que a resiliência da ciência brasileira vale a pena, porque nenhuma outra atividade dá o retorno econômico e social que a ciência tem dado à sociedade brasileira.”
Aos jovens que pensam em seguir o caminho, repete o que ouviu da avó. “Vocês podem ser o que quiserem. Sigam o coração e a vocação, porque é assim que vocês vão ser bem-sucedidos.” Em seguida, vem o aviso pragmático. “A ciência exige repetição, comprovação, rigor. É preciso ter noção de que ela leva tempo. Na saúde ou na alimentação, uma resposta pode demorar oito ou dez anos. Não é imediato. Mas, se você seguir sua vocação e seu coração, vai ser feliz.”


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