As manchas foliares causadas por Bipolaris maydis e Exserohilum turcicum podem reduzir de forma expressiva a produtividade do milho, especialmente quando a infecção ocorre precocemente e não é manejada de forma assertiva.  

Essas doenças, conhecidas como mancha-de-bipolaris e mancha-de-turcicum, respectivamente, têm impacto direto sobre o enchimento de grãos e a qualidade final da produção. 

No caso da mancha-de-turcicum, as perdas podem chegar a 50% quando o ataque começa antes da floração, segundo a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). 

No Brasil, a importância dessas doenças varia conforme a região e a época de cultivo. A mancha-de-turcicum é mais severa em cultivos de segunda safra (safrinha), sob temperaturas amenas, enquanto a mancha-de-bipolaris atinge maior severidade em regiões quentes e úmidas, como áreas do Centro-Oeste e do Norte do país. 

O diagnóstico correto é fundamental para definir o momento e o produto adequado para o controle, evitando perdas econômicas e falhas no manejo. 

Neste conteúdo, você encontrará informações detalhadas para diferenciar os sintomas de Bipolaris maydis e  Exserohilum turcicum no campo, entender as condições que favorecem cada uma e montar um programa de manejo integrado, incluindo o uso de fungicidas, biológicos e resistência varietal. 

Ficha rápida: Bipolaris maydis x Exserohilum turcicum 

Item Mancha-de-bipolaris Mancha-de-turcicum 
Agente causal Bipolaris maydis Exserohilum turcicum (sinônimo: Bipolaris turcica) 
Lesões Pequenas, alongadas entre as nervuras, cor palha a castanha Elípticas, de 2,5 cm a 15 cm, verde-acinzentadas a castanhas 
Condições favoráveis De 22 °C a 30 °C e alta umidade relativa De 18 °C a 27 °C e molhamento foliar prolongado 
Maior severidade Regiões quentes e úmidas (RO, MT, GO, TO) Plantios de safrinha, sob temperaturas amenas 
Perda potencial Superior a 70% em regiões tropicais quentes e úmidas Até 50% com ataque antes da floração 
Resistência genética Híbridos resistentes, conforme informação do obtentor Genes Ht (raça-específicos) e resistência quantitativa 
Fungicidas Entre 15 dias antes e 20 dias após o pendoamento Conforme monitoramento e severidade 

Principais pontos 

  • Bipolaris maydis causa a mancha-de-bipolaris; Exserohilum turcicum causa a mancha-de-turcicum. 
  • As lesões da mancha-de-turcicum, de 2,5 cm a 15 cm, são bem maiores que as da mancha-de-bipolaris, o que ajuda na diferenciação a olho nu. 
  • A mancha-de-turcicum é mais severa na safrinha, sob temperaturas amenas; a mancha-de-bipolaris, em regiões quentes e úmidas. 
  • O posicionamento do fungicida deve considerar o monitoramento e o período próximo ao pendoamento. 
  • A rotação dos mecanismos de ação reduz o risco de seleção de populações menos sensíveis. 

Doenças foliares causadas por Bipolaris no milho 

 Bipolaris maydis, necrotrófico, e Exserohilum turcicum, descrito como hemibiotrófico (Kotze et al., 2019), pertencem à classe Dothideomycetes, responsáveis por importantes manchas foliares no milho.  

Bipolaris maydis causa a mancha-de-bipolaris, enquanto Exserohilum turcicum (sin. Bipolaris turcica) é o agente da mancha-de-turcicum. Ambas apresentam ciclo policíclico, com múltiplas gerações de conídios por safra, o que favorece epidemias rápidas em condições ambientais propícias. 

 A mancha-de-bipolaris tem registros de elevada severidade em Rondônia, Mato Grosso, Goiás e Tocantins, enquanto a mancha-de-turcicum é mais severa em plantios de safrinha. 

As condições climáticas são determinantes para a ocorrência e severidade das doenças.  Temperaturas entre 22 °C e 30 °C e elevada umidade relativa favorecem B. maydis, enquanto E. turcicum se desenvolve melhor sob temperaturas moderadas, de 18 °C a 27 °C, e longos períodos de molhamento foliar ou orvalho, condições comuns durante o ciclo do milho safrinha 

Close de folhas de milho com várias manchas alongadas de cor marrom-clara a bronze, paralelas às nervuras, características de doença foliar fúngica como a mancha-de-cercospora ou a helmintosporiose. Há gotas de água sobre a folha.

Como Bipolaris spp. compromete o potencial produtivo do milho 

Ambas as espécies causam necrose foliar, reduzindo a área fotossintética e comprometendo o enchimento de grãos. As lesões podem evoluir rapidamente, levando à desfolha precoce e à redução do potencial produtivo.  

Em infecções severas, as perdas podem superar 40% no caso da mancha-de-turcicum e 70% no caso da mancha-de-bipolaris em regiões tropicais quentes e úmidas, principalmente quando a doença se instala antes do pendoamento. 

Além disso, a raça T de B. maydis pode infectar a palha e os grãos da espiga. 

Técnicas de campo para distinguir Bipolaris maydis e  E. turcicum 

O diagnóstico preciso das manchas foliares é essencial para o sucesso do manejo. A seguir, são detalhados os principais sintomas de cada doença e as ferramentas para confirmação  do diagnóstico. 

Características visuais da mancha-de-bipolaris em folhas de milho 

  • Lesões pequenas, inicialmente ovaladas, que se tornam alongadas e orientadas pelas nervuras quando maduras. 
  • Coloração palha a castanha, com margens castanhas; o halo clorótico é típico da raça T, e não da raça O, predominante. 
  • Início nas folhas mais velhas, com progressão ascendente. 
  • A raça T pode infectar espigas, com lesões na palha que avançam para os grãos. 

Identificando a mancha-de-turcicum: sinais e particularidades 

  • Lesões necróticas elípticas, de 2,5 cm a 15 cm de comprimento. 
  • Coloração verde-acinzentada no início, evoluindo para cinza ou castanha. 
  • Primeiras lesões nas folhas mais velhas, com progressão para o terço superior. 
  • Esporulação intensa em alta umidade, principalmente na face inferior da folha, com aspecto cinza-escuro. 

Ferramentas para confirmação de Bipolaris no milho 

  • Análise dos conídios ao microscópio, em laboratório: os de E. turcicum apresentam hilo basal saliente, ausente em B. maydis. 
  • Análise do histórico climático e dos sintomas observados. 
  • Envio de amostras para laboratórios de fitopatologia de universidades ou da Embrapa para diagnóstico. 

Comparativo rápido entre as duas doenças 

Característica Mancha-de-bipolaris (B. maydis) Mancha-de-turcicum (E. turcicum) 
Tamanho da lesão Pequena, alongada entre as nervuras De 2,5 cm a 15 cm 
Cor da lesão Palha a castanha, margens castanhas (halo clorótico apenas na raça T) Verde-acinzentada no início, depois cinza a castanha 
Conídio (microscópio) Hilo não saliente Hilo basal saliente 
Condições favoráveis De 22 °C a 30 °C, alta umidade De 18 °C a 27 °C, molhamento prolongado 

Influência do clima na prevalência de Bipolaris maydis e  E. turcicum 

A compreensão dos fatores ambientais é fundamental para prever o risco de epidemias e orientar o manejo. 

Condições ambientais favoráveis a Bipolaris maydis 

  • Temperaturas entre 22 °C e 30 °C, com elevada umidade relativa. 
  • Presença de água livre na superfície foliarpor períodos prolongados. 
  • Alta densidade de plantas, que favorece microclima úmido. 
  • Híbridos com citoplasma T, altamente suscetíveis à raça T, deixaram de ser usados na produção de sementes após a epidemia de 1970 nos Estados Unidos. 

Clima propício ao avanço de  E. turcicum 

  • Temperaturas entre 18 e 27°C, preferindo condições mais amenas. 
  • Umidade relativa acima de 90% e molhamento foliar superior a seis horas. 
  • Maior severidade em plantios de safrinha. 
  • Híbridos com menor nível de resistência são mais afetados. 

Manejo integrado: fungicidas, biológicos e resistência varietal 

O manejo das manchas foliares do milho exige uma abordagem integrada, combinando resistência genética, monitoramento, fungicidas e biológicos. 

Resistência varietal: a primeira linha de defesa 

Os genes Ht1, Ht2, Ht3 e Htn1 conferem resistência qualitativa e raça-específica a E. turcicum, que pode ser superada por raças virulentas do patógeno. 

 Em áreas com histórico das doenças, é recomendável escolher híbridos com bom nível de resistência à doença. 

Estratégias para aplicação de fungicidas 

Para a mancha-de-bipolaris, a Embrapa indica aplicações entre 15 dias antes e 20 dias após o pendoamento. Para a mancha-de-turcicum, a decisão deve considerar o monitoramento e a severidade da doença. 

Misturas de triazóis e estrobilurinas, associadas a multissítios como o mancozebe, ampliam o espectro de ação e contribuem para reduzir o risco de seleção de resistência. A escolha deve se restringir a produtos registrados para o alvo no Agrofit. 

 O uso sequencial de fungicidas de um só grupo químico aumenta o risco de seleção de populações menos sensíveis, o que reforça a rotação de grupos do FRAC e o monitoramento periódico das folhas mais velhas para a tomada de decisão. 

Inserindo biológicos no manejo sustentável de Bipolaris no milho 

Isolados de Bacillus spp., incluindo B. subtilis, inibiram o crescimento de E. turcicum em testes de laboratório. Esses agentes podem complementar o manejo químico, desde que verificada a compatibilidade. 

Trichoderma spp. é mais estudado para doenças de solo, mas pode contribuir indiretamente por meio da indução de resistência sistêmica. Os biológicos devem ser posicionados de forma preventiva, especialmente em áreas com histórico das doenças, e não substituem o fungicida em situações de alta pressão. 

Benefícios do manejo integrado contra Bipolaris no milho 

A integração do monitoramento e aplicação criteriosa de fungicidas e biológicos pode reduzir significativamente a severidade das manchas foliares, protegendo o potencial produtivo do milho.  

A proteção adequada durante o período crítico resulta em maior área foliar saudável, melhor enchimento de grãos e redução das perdas de produtividade.  

 O uso de biológicos registrados contribui para diversificar os modos de ação do programa de manejo. 

Práticas integradaspara o controle de Bipolaris no milho 

  • Realizar o monitoramento periódico das folhas mais velhas desde as fases vegetativas. 
  • Escolher híbridos com tolerância ou resistência adequadas para a região. 
  • Posicionar fungicidas registrados entre 15 dias antes e 20 dias após o pendoamento, conforme o monitoramento, priorizando misturas de triazóis, estrobilurinas e multissítios. 
  • Integrar biológicos ao manejo, especialmente em áreas com histórico de epidemia. 

Diferenciar corretamente Bipolaris maydis e E. turcicum é o primeiro passo para um manejo assertivo das manchas foliares do milho. A integração de monitoramento, fungicidas e biológicos é fundamental para proteger o potencial produtivo e a sustentabilidade da lavoura. 

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Perguntas frequentes 

1. Qual a diferença entre Bipolaris maydis e  Exserohilum turcicum? 

 Bipolaris maydis causa a mancha-de-bipolaris, com lesões pequenas, de cor palha a castanha e alongadas entre as nervuras. Exserohilum turcicum (sinônimo: Bipolaris turcica) causa a mancha-de-turcicum, com lesões elípticas bem maiores, de 2,5 cm a 15 cm, verde-acinzentadas a castanhas. 

2. Qual doença é mais comum no milho safrinha do Cerrado? 

 A mancha-de-turcicum (E. turcicum), favorecida por temperaturas moderadas, de 18 °C a 27 °C, e longos períodos de molhamento foliar. 

3. Quando aplicar fungicida contra Bipolaris no milho? 

 Para a mancha-de-bipolaris, a Embrapa indica aplicações entre 15 dias antes e 20 dias após o pendoamento. Para a mancha-de-turcicum, a decisão depende do monitoramento e da severidade da doença. 

4. Biológicos substituem o fungicida no controle de Bipolaris spp.? 

 Não. Isolados de Bacillus spp. apresentam atividade contra E. turcicum em laboratório, mas os produtos biológicos registrados complementam o manejo químico e não o substituem em situações de alta pressão. 

5. Existem híbridos resistentes à mancha-de-turcicum? 

 Sim. Os genes Ht1, Ht2, Ht3 e Htn1 conferem resistência raça-específica, que pode ser superada por raças virulentas. Híbridos com bom nível de resistência ainda exigem monitoramento e, em condições favoráveis à doença, intervenção química. 

6. Quanto pode reduzir a produtividade do milho em caso de infecção severa? 

 Na mancha-de-turcicum, as perdas podem chegar a 50% quando o ataque começa antes da floração. Na mancha-de-bipolaris, podem superar 70% em regiões tropicais quentes e úmidas.