A qualidade do trigo brasileiro tornou-se um dos principais pontos de atenção da safra de 2026. Os primeiros lotes colhidos no Paraná e em São Paulo apresentam maior presença de grãos dos tipos 2 e 3 e menor disponibilidade do tipo 1, mais procurado pela indústria de panificação. No Rio Grande do Sul, a colheita ainda é pontual e enfrenta dificuldade para avançar por causa das chuvas. 

O quadro amplia a incerteza sobre quanto da produção nacional poderá ser destinado à fabricação de farinha com os padrões exigidos pelos moinhos. Como a safra já deve ser menor devido à redução da área plantada, eventuais perdas de qualidade podem aumentar a dependência do produto importado no ciclo comercial 2026/2027. 

Qualidade do trigo brasileiro recua nos primeiros lotes 

Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP, amostras colhidas no Paraná e em São Paulo apresentaram redução de peso hectolítrico, força de glúten e Falling Number. Esses parâmetros ajudam a determinar a classificação comercial do cereal e sua adequação aos diferentes usos industriais. 

O peso hectolítrico, conhecido pela sigla PH, relaciona a massa do trigo ao volume ocupado e é usado como uma referência de rendimento e qualidade física. A força de glúten indica o comportamento da massa durante a fabricação de pães e outros produtos. Já o Falling Number auxilia na avaliação da atividade enzimática do grão, que pode aumentar após germinação ou deterioração provocada pela umidade. 

Quando esses indicadores ficam abaixo do padrão procurado pelos moinhos, os lotes podem receber classificação inferior, enfrentar descontos ou ser direcionados a outros usos. Em uma temporada com menor oferta de trigo tipo 1, grãos que preservarem os atributos exigidos pela indústria tendem a ganhar valor relativo. 

Clima afeta lavouras em diferentes etapas da safra 

Os problemas observados resultam de uma combinação de excesso de chuva, umidade elevada, doenças e episódios de geada em regiões produtoras. O impacto varia conforme o momento em que cada evento atingiu a cultura. Ocorrências durante a floração, o enchimento de grãos ou a fase próxima da colheita podem alterar rendimento, sanidade e características industriais. 

Além do clima, a redução da área nacional diminuiu a margem para compensar perdas regionais. Com menos hectares cultivados, problemas de produtividade ou qualidade exercem efeito proporcionalmente maior sobre o volume disponível para o abastecimento interno. 

Colheita gaúcha depende de uma janela de tempo firme 

No Rio Grande do Sul, ainda não há volume suficiente para concluir se a qualidade comercial repetirá o cenário observado no Paraná e em São Paulo. Em entrevista ao Notícias Agrícolas, o diretor técnico da Emater/RS, Mateus Rocha, informou que menos de 1% do trigo havia sido colhido na região de Santa Rosa, enquanto aproximadamente 15% das lavouras estavam em maturação. 

Em municípios com ciclo mais adiantado, como Porto Xavier e Doutor Maurício Cardoso, a colheita alcançava cerca de 4%. As chuvas até o dia 21 e a previsão de novos volumes dificultavam tanto a redução da umidade dos grãos quanto a entrada das máquinas nas áreas prontas. 

A demora na retirada mantém as espigas expostas a precipitações e oscilações de umidade justamente no encerramento do ciclo. Para reduzir riscos, os produtores precisam conciliar maturação, capacidade operacional, condições do solo e disponibilidade de estruturas para secagem e armazenagem. 

Desuniformidade e doenças exigem monitoramento 

A safra gaúcha apresenta desenvolvimento desuniforme porque a implantação ocorreu em momentos diferentes, de acordo com as condições climáticas disponíveis para o plantio. Assim, lavouras próximas podem chegar à maturação em datas distintas, o que torna o planejamento da colheita mais complexo. 

O ambiente úmido também favoreceu a ocorrência de oídio e giberela. De acordo com a Emater/RS, os produtores vêm controlando os problemas e, até o momento citado pela fonte, a situação permanecia dentro do esperado para uma temporada de maior umidade. 

Na reta final, os principais pontos de atenção incluem: 

  • Evolução da umidade dos grãos e das condições de entrada das máquinas; 
  • Presença de sintomas de doenças nas espigas; 
  • Uniformidade de maturação dentro de cada área; 
  • Parâmetros de qualidade exigidos para a classificação comercial. 

Importações devem complementar uma safra menor 

A Companhia Nacional de Abastecimento projeta produção brasileira de 5,8 milhões de toneladas de trigo em 2026, após redução de 20,4% na área plantada. Para o ciclo comercial 2026/2027, a estimativa é de importações de 7,103 milhões de toneladas, mais de 20% acima da temporada anterior e próximas do maior volume registrado pelo país em duas décadas. 

A Argentina deverá continuar como a principal fornecedora do Brasil, especialmente após a entrada da nova safra do país vizinho no mercado. A disponibilidade externa, porém, não é o único fator que define o custo para a indústria brasileira. Câmbio, logística, frete e concorrência de outros compradores também influenciam a paridade de importação. 

A menor circulação de trigo pela região do Mar Negro vinha levando importadores internacionais a buscar alternativas na Argentina e na Austrália, conforme análise da StoneX citada no material de referência. Uma disputa mais intensa pelo cereal argentino pode encarecer as compras brasileiras, embora a oferta volumosa do país vizinho ajude a limitar pressões mais fortes. 

Classificação definirá o valor dos lotes e a estratégia dos moinhos 

O resultado comercial da safra dependerá não apenas da quantidade colhida, mas da parcela que atingirá os padrões necessários para a panificação. Para o produtor, lotes com melhor PH, força de glúten e estabilidade podem conquistar prêmios ou evitar descontos. Trigos de classificação inferior ficam mais sujeitos a negociações restritas e outros destinos industriais. 

Para os moinhos, o desafio será combinar trigo doméstico e importado de maneira compatível com as especificações da farinha. A definição desse equilíbrio dependerá da qualidade efetivamente apurada no Rio Grande do Sul, do avanço da colheita nas demais regiões e do custo de aquisição no mercado externo. 

As próximas semanas serão decisivas para dimensionar o problema. Uma sequência de tempo firme pode acelerar a colheita gaúcha e preservar parte da qualidade ainda no campo. Se a umidade persistir, crescem os riscos de atraso, perda de padrão comercial e maior necessidade de trigo importado para completar o abastecimento nacional. 

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