As chuvas na cana-de-açúcar estão mudando o calendário da safra no Centro-Sul do Brasil. A dificuldade para entrar nos canaviais pode deixar até 35 milhões de toneladas sem processamento no período habitual, segundo estimativa da Datagro.
Se confirmado, o volume superará as 24 milhões de toneladas que permaneceram no campo na safra 2015/2016. A projeção, porém, ainda depende do comportamento do clima, da capacidade das usinas e das condições de colheita nos próximos meses.
A StoneX trabalha com uma composição diferente. A consultoria estima que cerca de 10 milhões de toneladas poderão ser processadas em março de 2027 e outras 22 milhões incorporadas ao ciclo 2027/2028.
Chuvas na cana-de-açúcar atrasam entrada das máquinas
A colheita mecanizada exige condições mínimas de tráfego. Quando o solo permanece saturado, colhedoras, tratores e transbordos perdem rendimento e podem ficar impossibilitados de acessar os talhões.
A entrada de equipamentos pesados em terreno encharcado também eleva o risco de compactação, formação de sulcos e danos às soqueiras. Esses problemas podem afetar a produtividade dos cortes seguintes.
Diante desse cenário, as unidades precisam selecionar áreas com melhor condição operacional. A mudança constante da frente de colheita aumenta deslocamentos, reorganiza rotas e reduz a previsibilidade do abastecimento industrial.
O que significa deixar cana para o próximo ciclo
A cana que permanece no campo além do calendário planejado costuma ser chamada de cana bisada. Parte pode ser colhida no fim da safra atual, enquanto outra parcela entra efetivamente na temporada seguinte.
Nem todo volume atrasado terá o mesmo destino. Algumas usinas podem estender a moagem até fevereiro ou março. Outras podem encerrar as operações e transferir os talhões para a próxima abertura de safra.
A decisão considera maturação, distância até a unidade, condição do solo, disponibilidade de equipes e necessidade de manutenção industrial. A qualidade da matéria-prima também pesa na definição.
ATR menor reduz rendimento industrial por tonelada
O excesso de umidade não afeta apenas o ritmo da colheita. Ele também pode reduzir o açúcar total recuperável, conhecido pela sigla ATR, principal referência de qualidade e remuneração da cana.
O ATR indica quanto açúcar pode ser recuperado de uma tonelada de matéria-prima. Com água abundante, a planta pode manter o crescimento vegetativo por mais tempo e acumular sacarose em ritmo menor.
A maior hidratação dos colmos também dilui a concentração de açúcares no caldo. Assim, uma tonelada de cana pode entregar menos matéria-prima útil para produzir açúcar e etanol.
Na primeira metade de setembro, levantamentos do setor apontaram ATR próximo de 147,5 quilos por tonelada no Centro-Sul, abaixo dos 154,6 quilos registrados no mesmo período do ciclo anterior.
Umidade também interfere na produção de açúcar
A fabricação de açúcar depende da concentração e da cristalização da sacarose. Caldo mais diluído exige maior retirada de água e pode reduzir a eficiência do processo industrial.
A cana colhida em condições úmidas também pode levar mais terra e impurezas minerais para a usina. Esse material aumenta a necessidade de limpeza, provoca desgaste de equipamentos e reduz o aproveitamento industrial.
Em situações de menor qualidade, algumas unidades podem ajustar o mix e direcionar uma parcela maior da matéria-prima para o etanol. Essa decisão depende dos preços relativos, dos contratos e da configuração de cada usina.
Isso não significa que toda cana afetada pela chuva será transformada em biocombustível. Açúcar e etanol continuarão disputando matéria-prima conforme a rentabilidade de cada produto.
Safra pode avançar até fevereiro ou março de 2027
A moagem do Centro-Sul costuma perder força a partir de novembro, quando aumentam as chuvas e parte das unidades entra na entressafra. Em 2026, o calendário pode se estender por mais tempo.
Usinas com cana acessível e condições industriais poderão continuar operando em dezembro, janeiro e fevereiro. Algumas projeções incluem processamento adicional em março de 2027.
A extensão reduz o intervalo disponível para manutenção de moendas, caldeiras, destilarias e sistemas de transporte. As equipes precisarão conciliar o fim tardio de uma safra com a preparação da seguinte.
Entre os pontos de atenção para as unidades estão:
- Disponibilidade de cana com qualidade suficiente;
- Condição das estradas e acesso aos talhões;
- Tempo necessário para a manutenção industrial;
- Capacidade de armazenagem e cumprimento de contratos.
Tombamento aumenta perdas e dificulta o corte
O solo encharcado perde capacidade de sustentação. Ao mesmo tempo, plantas mais pesadas pelo crescimento e pela umidade ficam mais sujeitas ao tombamento.
A cana tombada dificulta o alinhamento das colhedoras e pode elevar as perdas no campo. O corte torna-se mais lento, e parte dos colmos pode permanecer no solo ou ser recolhida com maior quantidade de palha e terra.
Ventos fortes e tempestades agravam o problema. Talhões com variedades mais suscetíveis, porte elevado ou sistema radicular comprometido exigem atenção adicional das equipes agrícolas.
Ambiente úmido favorece a cigarrinha-da-raiz
A chuva também pode ampliar a pressão da cigarrinha-da-raiz. As ninfas permanecem próximas às raízes e produzem uma espuma que as protege contra perda de água e variações de temperatura.
Solo úmido e palhada abundante favorecem a sobrevivência do inseto. O ataque reduz a capacidade de a planta transportar água e nutrientes e pode provocar amarelecimento, secamento das folhas e perda de produtividade.
A praga também pode prejudicar o teor de açúcar e a qualidade industrial. O monitoramento precisa considerar histórico da área, população encontrada e estágio da cultura.
O manejo pode reunir controle biológico, produtos registrados e organização da palhada. A decisão deve seguir recomendação agronômica e as instruções de uso de cada tecnologia.
Chuva traz benefícios, mas cria um problema de calendário
A disponibilidade de água favorece o crescimento dos canaviais e pode elevar a quantidade de colmos por hectare. Por isso, a mesma chuva que atrasa a operação pode sustentar uma produção agrícola maior.
O desafio está no desencontro entre volume e momento de colheita. Cana abundante, mas inacessível ou com ATR menor, não se converte automaticamente em maior produção de açúcar.
Esse contraste ajuda a explicar por que as projeções combinam bom potencial de biomassa com revisão do processamento e da produção industrial. O resultado final será definido pela janela operacional disponível.
Volume transferido pode reforçar a safra 2027/28
A cana não processada neste ciclo amplia a oferta potencial para a temporada seguinte. A StoneX estima 22 milhões de toneladas incorporadas à safra 2027/2028, além do volume que poderá ser moído em março.
Esse carregamento pode contribuir para uma abertura de safra mais volumosa. Entretanto, a qualidade e o rendimento da cana bisada dependerão do tempo de permanência no campo e das condições enfrentadas até a colheita.
A safra seguinte também receberá a produção dos novos cortes. Por isso, o setor poderá iniciar 2027/2028 com grande quantidade de matéria-prima e forte demanda por capacidade agrícola e industrial.
Atraso afeta fornecedores e planejamento das usinas
Para fornecedores independentes, a postergação da colheita altera fluxo de caixa e cronograma de renovação dos canaviais. Pagamentos ligados à entrega e ao ATR podem ocorrer mais tarde ou com valores diferentes do planejado.
O atraso também interfere no plantio de novas áreas. Talhões que deveriam ser colhidos e reformados podem permanecer ocupados, reduzindo o período disponível para preparo do solo e implantação.
Nas usinas, o planejamento envolve pessoal, peças, combustível, transporte e contratos de venda. Uma safra mais longa exige reprogramação de recursos e pode elevar custos operacionais.
Impacto nos preços depende de produção, estoques e mercado externo
A redução do ATR e o atraso da moagem podem limitar a oferta de açúcar no curto prazo. Ainda assim, o efeito sobre os preços não depende apenas da safra brasileira.
Estoques globais, produção em outros países, câmbio, demanda por etanol e comportamento dos fundos no mercado internacional também influenciam as cotações.
No mercado doméstico, a disponibilidade de etanol, o preço da gasolina e o consumo de combustíveis ajudam a definir o mix das usinas. Mudanças nesses fatores podem alterar a destinação da cana.
Estimativas ainda podem mudar com o clima
Os números de 35 milhões de toneladas da Datagro e de 32 milhões no cenário combinado da StoneX são estimativas. Eles não representam um volume já confirmado de cana perdida ou transferida.
Uma sequência de dias secos pode acelerar a colheita e reduzir o carregamento para 2027. Novos episódios de chuva podem ampliar as paralisações e aumentar a quantidade remanescente.
O acompanhamento das próximas quinzenas será decisivo. Moagem, ATR, dias efetivos de operação e percentual de usinas em atividade mostrarão o tamanho real do atraso.
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