A broca-da-cana, Diatraea saccharalis, é considerada a principal praga da cana-de-açúcar no Brasil. Segundo a Embrapa, cada 1% de intensidade de infestação (IIF) resulta, em média, em perdas próximas de 0,49% na produção de açúcar, 0,28% na produção de álcool e 1,5% na produtividade de colmos, tornando seu controle uma das decisões mais críticas dentro do planejamento fitossanitário da cultura.
O programa de controle biológico da broca-da-cana com Cotesia flavipes é, reconhecidamente, um dos exemplos mais consolidados de controle biológico em larga escala no agronegócio brasileiro.
Adotado em cerca de 3 milhões de hectares nas principais regiões produtoras, o programa combina criação massal em laboratório, liberação e monitoramento contínuo para manter as populações da praga abaixo do nível de dano econômico.
Este conteúdo reúne as principais recomendações técnicas para conduzir o programa com assertividade, desde a avaliação da infestação até a decisão de novas liberações, com base em pesquisas da Embrapa e de instituições como a UNESP.
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Biologia de Cotesia flavipes e sua ação parasitária sobre a broca-da-cana
Cotesia flavipes (Hymenoptera: Braconidae) é um endoparasitoide larval originário da região indo-asiática, introduzido no Brasil na década de 1970 como agente de controle biológico de D. saccharalis.
A fêmea localiza lagartas hospedeiras por meio de sinais químicos voláteis emitidos pela planta danificada e deposita seus ovos diretamente no interior do corpo da lagarta, onde as larvas do parasitoide se desenvolvem consumindo os tecidos não vitais do hospedeiro.
Ao ovipositar, a fêmea injeta junto aos ovos partículas virais associadas (polydnavirus), que inibem a resposta imune celular da lagarta, impedindo o encapsulamento dos ovos.
Esse processo garante o desenvolvimento completo das larvas do parasitoide até a emergência, que ocorre perfurando o tegumento da lagarta hospedeira, geralmente já debilitada ou morta.

O ciclo reprodutivo do endoparasitoide e como neutraliza as defesas imunológicas de D. saccharalis
O ciclo de C. flavipes dura, em média, em cerca de 20 dias a 25°C, passando pelas fases de ovo, larva (três ínstares), pupa (em casulo externo ao hospedeiro) e adulto.
A fêmea adulta apresenta longevidade curta, com maior atividade de oviposição nos primeiros dias após a emergência. A capacidade de parasitismo por fêmea varia conforme a idade do inseto no momento da liberação, a temperatura ambiente e a disponibilidade de hospedeiros.
A razão sexual como fator crítico na produção em massa e no desempenho em campo
A razão sexual (proporção de fêmeas em relação ao total de adultos emergidos) é um dos principais indicadores de qualidade do material produzido em laboratório. Valores abaixo de 0,5 (menos de 50% de fêmeas) comprometem diretamente a taxa de parasitismo em campo, pois apenas as fêmeas realizam a oviposição.
Segundo recomendações da Embrapa, lotes com razão sexual inferior a 0,5 não devem ser liberados, pois o custo operacional não se justifica diante do baixo potencial de controle.
Diagnóstico preciso: avaliando antes de liberar o parasitoide
A decisão de liberar C. flavipes deve ser precedida por uma avaliação criteriosa da da lavoura. Liberar o parasitoide sem esse diagnóstico pode resultar em desperdício de material biológico ou em intervenção tardia, quando os danos já comprometeram o potencial produtivo.
Protocolo de amostragem: 100 colmos e extrapolação de densidade populacional
A metodologia padrão, descrita pela Embrapa, consiste na coleta aleatória de 100 colmos por talhão, distribuídos em pontos representativos da área. Cada colmo é seccionado e inspecionado para identificação de entrenós brocados.
A partir desses dados, calcula-se a intensidade de infestação (percentual de entrenós brocados em relação ao total amostrado) e estima-se o número de brocas por hectare, considerando a densidade de colmos da variedade cultivada.
Limiar econômico de infestação que viabiliza o controle biológico
De acordo com a Embrapa, a liberação de C. flavipes é recomendável quando a intensidade de infestação supera 3% de entrenós brocados. Abaixo desse patamar, a população de hospedeiros pode ser insuficiente para sustentar o estabelecimento do parasitoide em campo, reduzindo a eficiência do programa.
Acima de 10% a 15%, a liberação ainda é válida, mas pode ser necessário associar outros agentes ou estratégias complementares para suprimir a população mais rapidamente.
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Otimizando liberações: densidade, horário e condições ideais
Os parâmetros de liberação de C. flavipes são determinantes para o sucesso do programa. Variáveis como densidade de parasitoides por hectare, horário de liberação e idade do inseto no momento da soltura influenciam diretamente a taxa de parasitismo obtida em campo.
Condições ideais: temperatura próxima a 24°C e liberação entre 7h e 9h
Pesquisas publicadas na Redalyc demonstram que o horário de liberação entre 7h e 9h da manhã, associado a temperaturas próximas de 24°C, proporciona as melhores condições para a atividade de voo e busca por hospedeiros pelas fêmeas.
Temperaturas acima de 30°C reduzem a longevidade dos adultos e apresentam desempenho inferior.
Idade do parasitoide (0, 24 e 48h): qual estágio apresenta melhor desempenho
A idade do parasitoide no momento da liberação é outro fator crítico. Fêmeas com zero hora de vida (recém-emergidas) ainda não completaram a maturação dos ovários, apresentando menor capacidade de oviposição imediata.
Fêmeas com 24 horas de vida demonstram maior taxa de parasitismo em campo, pois já atingiram a maturidade reprodutiva sem perda significativa de longevidade. Fêmeas com 48 horas, embora ainda ativas, apresentam redução na capacidade de parasitismo em comparação às de 24 horas, segundo dados da Embrapa.
Parâmetros de liberação de Cotesia flavipes:
| Variável | Recomendação | Impacto no parasitismo |
| Densidade de liberação | ~ 6.000 indivíduos/ha, distribuídos em cerca de 8 pontos | Alta densidade aumenta encontro com hospedeiros |
| Horário de liberação | 7h às 9h | Temperatura e umidade favoráveis à atividade de voo |
| Temperatura ideal | ~24°C | Maximiza longevidade e comportamento de busca |
| Idade do parasitoide | 24 horas | Maturidade reprodutiva plena sem perda de longevidade |
| Razão sexual mínima | ≥ 0,5 | Proporção adequada de fêmeas ovipositórias |
Monitoramento pós-liberação: rastreando o sucesso do parasitismo
O monitoramento pós-liberação é etapa indispensável para avaliaro programa e subsidiar a decisão de novas intervenções. Sem esse acompanhamento, não é possível saber se o parasitoide se estabeleceu na área nem se a população de D. saccharalis está sendo suprimida.
Protocolo de coleta de lagartas e análise laboratorial simplificada
O monitoramento consiste na coleta de lagartas vivas de D. saccharalis nos colmos, realizada entre 15 e 21 dias após a liberação de C. flavipes. As lagartas coletadas são acondicionadas individualmente em recipientes com dieta artificial e mantidas em laboratório por sete a dez dias.
Ao final desse período, observa-se a emergência de casulos de C. flavipes ou a morte das lagartas por parasitismo, permitindo calcular a taxa de parasitismo (percentual de lagartas parasitadas em relação ao total coletado).
Interpretando dados de parasitismo e critérios para para nova liberação
Taxas de parasitismo acima de 30% a 40% indicam estabelecimento satisfatório do parasitoide e tendência de supressão populacional.
Taxas abaixo de 20% sugerem que a liberação não foi suficiente para colonizar a área ou que condições adversas comprometeram o desempenho do parasitoide, sendo recomendável uma nova liberação.
A decisão deve sempre considerar também a intensidade de infestação atual, avaliada por nova amostragem de colmos.
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Associação estratégica: Trichogramma galloi e Tetrastichus howardi em sinergia
O programa de controle biológico da broca-da-cana pode ser potencializado pela associação de parasitoides que atuam em diferentes estádios do ciclo de D. saccharalis, ampliando o espectro de supressão populacional.
Trichogramma galloi é um ectoparasitoide de ovos que atua na fase inicial do ciclo da praga, antes que as lagartas penetrem nos colmos e causem danos.
Já o Tetrastichus howardi é um endoparasitoide de pupas, indicado para situações em que a população de lagartas já completou o desenvolvimento larval e se encontra na fase de pupa nos colmos. Sua inclusão no programa é especialmente relevante em áreas com histórico de alta infestação, onde a pressão da praga persiste ao longo de toda a safra.
A integração dos três agentes, cada um atuando em um estádio distinto do ciclo de D. saccharalis, representa a abordagem mais completa para a supressão populacional sustentada.
Controle biológico como pilar de sustentabilidade na cana-de-açúcar
O programa com Cotesia flavipes não deve ser encarado como uma intervenção pontual, mas como uma estratégia de manejo contínuo, construída safra a safra. O sucesso do controle biológico depende da qualidade do material liberado, da precisão na avaliação da infestação, do respeito aos parâmetros de liberação e do monitoramento sistemático dos resultados.
A integração entre C. flavipes, T. galloi e T. howardi, orientada por dados de campo e respaldada por pesquisas da Embrapa e da UNESP, representa o caminho mais sólido para manter a broca-da-cana sob controle sem comprometer a rentabilidade da lavoura.
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