A formiga cortadeira é o nome dado às espécies dos gêneros Atta (saúva) e Acromyrmex (quenquém), que cortam e carregam folhas, brotos e outras partes das plantas para alimentar um fungo cultivado dentro do ninho. 

É considerada uma das pragas de maior impacto econômico nos sistemas produtivos brasileiros, capaz de comprometer desde o estabelecimento inicial de uma lavoura até a formação de culturas perenes e florestas comerciais. 

Levantamentos técnicos indicam perdas de mais de 10% no volume de madeira em plantios florestais jovens após 100% de desfolha , segundo dados de da Embrapa Florestas

Este guia explica como identificar um formigueiro ativo, o ciclo de vida da colônia, os prejuízos que a formiga cortadeira causa e como controlá-la de forma  duradoura. 

Ficha rápida: formiga cortadeira 

Gêneros principais Atta (saúva) e Acromyrmex (quenquém) 
Tamanho Saúva: 12 a 15 mm. Quenquém: 8 a 10 mm 
Hábito alimentar Fungívoras, cultivam fungo dentro do ninho a partir do material vegetal cortado 
Organização social Colônias com castas de operárias, soldados e uma  rainha 
Culturas mais afetadas Milho, café, soja, citros, hortaliças, plantios florestais pastagens 
Perda registrada Mais de 10% do volume de madeira em plantios florestais jovens com desfolha completa 
Estratégia de manejo Monitoramento e iscas granuladas visando a rainha 

Principais pontos 

  • Formiga cortadeira é diferente de formiga doméstica: ataca folhas na lavoura, não busca alimento em estruturas. 
  • Existem dois grupos principais: saúva (Atta) e quenquém (Acromyrmex), com ninhos e hábitos distintos. 
  • A colônia é organizada em castas e depende diretamente da rainha para se manter ativa por anos. 
  • O dano é maior na fase de formação da planta, podendo causar desfolha total em poucas horas. 
  • O controledepende de localizar e atingir a rainha, não só os indivíduos que circulam na superfície. 
  • O controle isolado tende a falhar: formigueiros vizinhos recolonizam a área rapidamente. 

O que são as formigas cortadeiras e por que elas preocupam tanto o produtor? 

As formigas cortadeiras são insetos sociais dos gêneros Atta e Acromyrmex que vivem em colônias subterrâneas organizadas por castas, e que dependem do corte de folhas e outras partes vegetais para cultivar, dentro do ninho, um fungo do qual se alimentam. 

Diferente da maioria dos insetos-praga, a formiga cortadeira não se alimenta diretamente da planta que ataca. 

O material vegetal cortado é levado para dentro do formigueiro e serve de substrato para o cultivo de um fungo simbionte, que é a real fonte de alimento da colônia. 

Esse hábito alimentar é o que torna a espécie tão eficiente em explorar grandes volumes de vegetação em pouco tempo, já que o objetivo não é comer a folha, mas sim abastecer continuamente a câmara de fungo. 

Um formigueiro maduro de saúva pode abrigar milhões de indivíduos organizados em diferentes castas: operárias pequenas que cuidam do fungo, operárias grandes que cortam e transportam as folhas, soldados que defendem o ninho e uma  rainha responsável pela reprodução. 

Essa organização social complexa é também o que torna o controle isolado pouco eficiente: eliminar as formigas que circulam fora do ninho não interrompe a atividade da colônia, que continua produzindo novos indivíduos enquanto a estrutura subterrânea permanecer intacta. 

Como o ninho se organiza por dentro 

Um formigueiro de saúva se estende por uma rede de túneis e câmaras subterrâneas que pode ultrapassar vários metros de profundidade e se espalhar por uma área considerável. 

Dentro dessa estrutura, existem câmaras específicas para o cultivo do fungo, câmaras de descarte de material vegetal já utilizado e áreas onde ficam a rainha e as formas jovens da colônia. 

Essa distribuição em compartimentos explica por que o controle apenas na entrada do ninho ou nas trilhas de forrageamento tem efeito limitado: o produto precisa alcançar as câmaras mais internas, onde estão os indivíduos reprodutivos. 

Formiga cortadeira carregando folha verde cortada sobre galho na floresta
Formiga cortadeira carregando folha verde cortada sobre galho na floresta

A revoada nupcial e a formação de novos formigueiros 

Em determinadas épocas do ano, geralmente associadas a mudanças de temperatura e umidade, machos e fêmeas alados deixam o ninho em voos nupciais para acasalar. 

Após a fecundação, cada fêmea fértil perde as asas e tenta fundar uma nova colônia, levando consigo uma pequena porção do fungo simbionte para iniciar o cultivo em um novo local. 

A maioria dessas tentativas de fundação não prospera, mas a alta quantidade de fêmeas envolvidas em cada revoada explica por que novos formigueiros podem surgir rapidamente em áreas próximas a colônias já estabelecidas, inclusive em propriedades vizinhas que não fizeram controle. 

Formiga cortadeira x formiga doméstica: qual a diferença? 

Confundir os dois grupos é um erro comum, já que ambas pertençam à família Formicidae. Porém, a formiga cortadeira e a formiga doméstica diferem no hábito alimentar, na estrutura da colônia e no ambiente de ocorrência.  

A cortadeira (Atta e Acromyrmex) corta material vegetal vivo para cultivar um fungo simbionte dentro do ninho, o que direciona sua atividade para lavouras, pastagens e áreas florestais. Já a formiga doméstica se alimenta diretamente de resíduos orgânicos (restos de comida, açúcar, gordura) e forma colônias menores, muitas vezes com múltiplas rainhas e ninhos secundários instalados em frestas, tomadas e estruturas de madeira. 

Essa diferença de hábito determina estratégias de controle distintas: a cortadeira exige iscas granuladas direcionadas à colônia em campo, enquanto a doméstica responde a iscas de ação lenta posicionadas em pontos de circulação dentro de estruturas, combinadas com limpeza e vedação de acessos. 

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Saúva x quenquém: como identificar cada uma? 

A saúva forma ninhos maiores, com monte de terra solta visível na superfície, enquanto o ninho da quenquém é menor, coberto de palha e pedaços de plantas, e mais difícil de localizar. 

Embora pertençam a gêneros diferentes,, as duas seguem o mesmo princípio de cultivo de fungo e corte de vegetação, mas se diferenciam de forma prática em tamanho, comportamento e estrutura do ninho, o que muda a estratégia de monitoramento e controle em cada caso. 

Característica Saúva (Atta) Quenquém (Acromyrmex) 
Tamanho do inseto 12 a 15 mm 8 a 10 mm 
Espinhos no tórax 3 pares 4 ou 5 pares 
Ninho Visível, com monte de terra solta Pequeno, coberto de palha e restos vegetais 
Hábito de forrageamento Deixa trilhas visíveis até o ninho Forrageia à noite, sem deixar trilha clara 
Facilidade de localização Relativamente fácil, pelo monte de terra Mais difícil, exige inspeção detalhada 

Por que a quenquém é mais difícil de encontrar 

O ninho da quenquém costuma ser pequeno, camuflado por uma cobertura de palha, folhas secas e pedaços de material vegetal que se confunde com o solo ao redor. 

Por isso, em muitos casos, o produtor percebe a presença da praga apenas pelo dano nas plantas, sem conseguir localizar visualmente o formigueiro. 

Nesses casos, a recomendação técnica é distribuir iscas em pontos estratégicos ao redor da área afetada, mesmo sem a localização exata do ninho, para que as próprias operárias levem o produto até a colônia. 

As trilhas de forrageamento como sinal de alerta 

Um dos sinais mais confiáveis de atividade de saúva é a trilha de forrageamento: um caminho visível, muitas vezes limpo de vegetação rasteira, por onde as operárias circulam levando pedaços de folha até o ninho. 

Observar a direção dessas trilhas ajuda a localizar o formigueiro de origem, inclusive quando ele está fora dos limites da própria propriedade, em área de mata ou pastagem vizinha. 

Qual o ciclo de vida da colônia de formiga cortadeira? 

A colônia de formiga cortadeira passa por fases de fundação, crescimento e maturidade que podem se estender por vários anos, e o controle é mais assertivo quando considera em qual fase o formigueiro se encontra. 

Uma colônia recém-fundada, ainda pequena e com poucos indivíduos, tende a ser mais vulnerável ao controle, já que a quantidade de iscas necessárias para atingir a rainha é menor e a estrutura de túneis ainda é limitada. 

Já um formigueiro maduro, estabelecido há vários anos, pode ter múltiplas entradas, câmaras profundas e uma população numerosa, o que exige quantidades maiores de isca e, em alguns casos, mais de uma aplicação para  que o produto alcance toda a colônia. 

Esse crescimento gradual também explica por que áreas com histórico de formiga cortadeira tendem a apresentar problemas recorrentes: um formigueiro não tratado adequadamente continua se expandindo ano após ano, aumentando tanto a área de forrageamento quanto o potencial de dano às lavouras e plantios ao redor. 

Confira: Cultivo de melancia: técnicas e cuidados essenciais para produção 

Quais os prejuízos causados pela formiga cortadeira? 

A formiga cortadeira pode desfolhar totalmente uma planta jovem em poucas horas, comprometendo o estabelecimento da lavoura e retardando o crescimento de culturas perenes. 

Segundo o Portal Agropecuário,  colônias maduras de saúva são capazes de desfolhar rapidamente plantas frutíferas, podendo comprometer severamente a área foliar em um curto intervalo de tempo. Além disso, a praga é considerada extremamente prejudicial para produtores de milho, café, soja e citros, além de causar sérios prejuízos a horticultores, plantios florestais e pastagens. 

O impacto varia conforme o estágio da cultura. Em plantios recém-implantados, a desfolha pode significar a perda total da muda ou da plântula, exigindo replantio e atrasando todo o cronograma da safra. 

Já em culturas já estabelecidas, o dano costuma ser mais gradual, mas pode comprometer a produtividade ao longo de vários ciclos, já que a planta gasta energia se recuperando da desfolha em vez de investir em crescimento ou produção. 

Impacto em plantios florestais e reflorestamento 

Em plantios florestais comerciais, como eucalipt, a formiga cortadeira é considerada uma das principais pragas em termos de impacto econômico. 

Levantamentos técnicos indicam perdas de mais de 10% no volume de madeira em áreas com desfolha completa, já que mudas jovens desfolhadas repetidamente têm o crescimento comprometido de forma permanente, mesmo quando sobrevivem ao ataque inicial. 

Impacto em lavouras anuais e perenes 

Em culturas como milho e soja, o maior risco ocorre na fase de estabelecimento, quando a planta ainda é pequena e vulnerável à desfolha. 

Já em culturas perenes como café e citros, o dano recorrente ao longo dos anos pode comprometer a arquitetura da planta e reduzir sua capacidade produtiva a longo prazo, além de facilitar a entrada de doenças oportunistas nos pontos de corte deixados pelas formigas. 

Por que o controle não pode se limitar à própria propriedade 

As formigas cortadeiras percorrem longas distâncias com facilidade, o que significa que o controle isolado em uma única propriedade tende a ser insuficiente. O ideal é coordenar o manejo também com propriedades vizinhas. 

Um formigueiro localizado em área de mata ou pastagem ao lado da lavoura pode continuar enviando operárias para cortar folhas mesmo depois de um controle bem-sucedido dentro dos limites da propriedade, o que reforça a importância do diálogo entre produtores vizinhos e, quando possível, de ações coletivas de controle regional. 

Como controlar a formiga cortadeira na lavoura? 

O controlepode ser feito usando iscas  distribuídas próximas ao ninho, visando atingir e eliminar a rainha. Sem ela, a colônia não se sustenta. 

Quando o ninho não é localizado, a recomendação técnica é distribuir iscas em pontos estratégicos ao redor da área afetada, seguindo as instruções de bula do produto utilizado. 

A época mais indicada para o controle depende do sistema de cultivo. Em lavouras anuais, como milho e soja, o intervalo entre a colheita e a semeadura seguinte favorece a iscagem, já que a menor oferta de alimento aumenta a atratividade da isca e a ausência de cobertura vegetal facilita a localização dos ninhos.  

Em culturas perenes e plantios florestais, o controle deve ser contínuo, com ênfase nas fases de pré-plantio e pós-plantio (nos primeiros 30 dias) e preferência por períodos secos para a distribuição de iscas granuladas. 

Como a isca granulada age dentro da colônia 

A isca granulada é formulada com um atrativo alimentar que estimula as operárias a coletarem o grânulo e levá-lo para dentro do ninho, como fariam com um pedaço de folha. 

Uma vez dentro da colônia, o material é processado pelas próprias formigas e distribuído entre os indivíduos, incluindo aqueles que cuidam do fungo e, eventualmente, a própria rainha. 

Esse mecanismo de transporte passivo é o que permite que o produto alcance câmaras profundas do ninho, inacessíveis a uma aplicação direta na superfície. 

Condições ideais para aplicar a isca 

A eficácia da iscagem depende de alguns cuidados práticos: aplicar em dias secos, sem previsão de chuva nas horas seguintes, já que a umidade pode prejudicar a ação do produto. 

Também vale evitar horários de forrageamento reduzido, como o meio do dia em períodos muito quentes, e distribuir a isca próxima às trilhas ativas ou diretamente sobre o monte de terra do ninho, sempre seguindo as instruções de bula quanto à quantidade recomendada por área ou por formigueiro. 

Monitoramento após o controle 

Depois da aplicação, o monitoramento é importante para confirmar a eficácia do controle. 

A redução ou o desaparecimento da atividade de forrageamento nas semanas seguintes é um bom indicativo de que a colônia foi controlada. 

Em formigueiros muito grandes ou antigos, pode ser necessária uma segunda aplicação, especialmente se ainda houver movimentação de operárias nas proximidades do ninho após o período esperado de ação do produto. 

Confira sobre: Cultivo de melancia: técnicas e cuidados essenciais para produção 

Como prevenir novas infestações de formiga cortadeira? 

A prevenção mais assertiva combina monitoramento periódico das áreas de entorno da lavoura, controle coordenado com propriedades vizinhas e ação rápida assim que um novo formigueiro é identificado, antes que a colônia amadureça. 

Como novas colônias podem surgir a qualquer momento a partir de revoadas nupciais vindas de formigueiros distantes, a prevenção não elimina totalmente o risco de novas infestações, mas reduz significativamente o impacto quando o controle é feito de forma preventiva. 

Inspecionar periodicamente as bordas da lavoura, áreas de mata, pastagens e terrenos baldios próximos ajuda a identificar formigueiros ainda pequenos, que são mais fáceis e baratos de controlar do que colônias já maduras. 

Manter um cronograma de monitoramento, especialmente após períodos de revoada e logo após a colheita, quando a falta de alimento na lavoura torna os ninhos mais visíveis, é uma das práticas mais recomendadas para reduzir a reincidência do problema ano após ano. 

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Confira a central de conteúdos Mais Agro para ficar por dentro de tudo que está acontecendo no campo. 

Perguntas frequentes 

  1. Qual a diferença entre formiga cortadeira e formiga doméstica? 

 A cortadeira corta folhas e partes vegetais vivas para cultivar um fungo dentro do ninho, atuando em lavouras e áreas florestais. A doméstica se alimenta diretamente de resíduos orgânicos em estruturas como casas e depósitos. Essa diferença de hábito alimentar exige estratégias de controle distintas. 

  1. Como identificar um formigueiro ativo? 

Na saúva, pelo monte de terra solta visível na superfície; na quenquém, por um ninho pequeno coberto de palha, mais difícil de ver, além de trilhas de forrageamento próximas às plantas atacadas. 

  1. Formigas causam prejuízo real na lavoura? 

Sim. Podem desfolhar uma planta jovem em poucas horas e comprometer todo o estande, além de causar perdas de mais de 10% no volume de madeira em plantios florestais jovens com desfolha completa. 

  1. Como controlar formiga cortadeira? 

Com iscas  próximas ao ninho, visando eliminar a rainha, já que sem ela a colônia não se sustenta. 

  1. Por que só matar as formigas visíveis não resolve? 

A colônia e a rainha continuam produzindo novos indivíduos enquanto o ninho não for atingido, e as operárias visíveis representam apenas uma pequena parte da população total. 

  1. Qual a  época mais indicada para controlar formigas cortadeiras? 

 Em lavouras anuais, o período entre a colheita e a próxima semeadura, quando falta alimento e os ninhos ficam mais visíveis. Em culturas perenes e plantios florestais, o monitoramento deve ser contínuo, priorizando períodos secos para a aplicação de iscas. 

  1. Formigas afetam estruturas da propriedade? 

Espécies domésticas sim, danificando estruturas e armazéns. Diferente da cortadeira, que ataca a lavoura e não tem interesse em alimentos armazenados. 

  1. Por que o controle isolado em uma propriedade pode não funcionar? 

Porque formigueiros em áreas vizinhas continuam enviando operárias para a lavoura tratada, o que reforça a importância de um manejo coordenado entre propriedades.