A morte em reboleira na soja não é uma doença, mas um padrão de distribuição no campo que pode ter diferentes agentes causais, como Rhizoctonia solani, Macrophomina phaseolina, espécies de Fusarium e Phytophthora sojae, além de nematoides.  

Identificar qual agente predomina em cada talhão é o que define a estratégia de manejo. 

Ficha rápida: morte em reboleira na soja 

O que é Padrão de distribuição em manchas circulares, não uma doença específica 
Agentes associados Rhizoctonia solani, Macrophomina phaseolina, Fusarium spp. (F. brasiliense, F. tucumaniae, F. crassistipitatum), Phytophthora sojae 
Condição da Macrophomina Temperaturas elevadas (30 °C a 35 °C) com baixa umidade do solo. Sintomas mais evidentes após o florescimento, em veranicos 
Condição da Phytophthora Elevada umidade do solo, compactação e má drenagem, com reboleiras nas áreas baixas do talhão 
Condição do Fusarium Solos úmidos, mal drenados e compactados. Temperatura ótima de 22 °C a 24 °C 
Diagnóstico diferencial Raiz cinza com microescleródios (Macrophomina); lesão avermelhada na raiz principal (Fusarium); apodrecimento marrom-escuro que sobe pela haste (Phytophthora); córtex que se solta, expondo lenho branco (Rhizoctonia) 
Principal ferramenta Diagnóstico correto do agente predominante, com confirmação laboratorial 

Principais pontos 

  • Morte em reboleira” descreve um padrão de distribuição no campo, não uma doença específica: diferentes patógenos de solo, além de nematoides, podem causá-la. 
  • Macrophomina phaseolina (podridão de carvão da raiz) é o agente mais frequente. 
  • O corte da haste ajuda a diferenciar os agentes: raiz cinza com microescleródios (Macrophomina); lesão avermelhada na raiz principal (Fusarium); apodrecimento marrom-escuro que sobe pela haste (Phytophthora); córtex que se solta, expondo lenho branco (Rhizoctonia) 
  • Sem diagnóstico correto do agente predominante, não há um conjunto de práticas que resolva todos os casos. 

O que é a morte em reboleira e quais agentes patogênicos causam esse padrão  

Antes de falar em manejo, cabe esclarecer que a “morte em reboleira” descreve apenas o formato como as plantas morrem no campo. Não se trata de um agente causal específico.  

Diferentes doenças de solo podem gerar esse mesmo padrão visual, e cada uma delas exige uma resposta diferente. 

O padrão de reboleira: como reconhecer no campo 

O padrão de reboleira se caracteriza por plantas mortas ou em colapso, agrupadas em manchas circulares ou elípticas, de tamanho variável. Esse padrãoé típico de doenças de solo que se espalham a partir de um foco central de inóculo. 

No campo, alguns agentes respondem pela maior parte dos casos: Macrophomina phaseolina, além de Fusarium spp., Phytophthora sojae e Rhizoctonia solani. 

A análise visual dos sintomas costuma ser o primeiro passo para distinguir qual patógeno está agindo em cada área. No entanto, a confirmação definitiva depende da coleta de amostras e do envio para laboratório. 

Por que o padrão circular ocorre 

Os patógenos de solo se disseminam de forma radial a partir de um foco de inóculo. Esse comportamento explica a formação natural das manchas circulares no talhão. 

Além disso, a compactação localizada contribui para o problema: ela cria manchas de solo com maior estresse hídrico, condição que favorece especialmente a M. phaseolina. 

Áreas sem rotação de culturas também concentram o inóculo em um padrão de “bolsão”. Como resultado, a reboleira tende a reaparecer nos mesmos pontos do talhão, safra após safra. 

Macrophomina phaseolina: a podridão de carvão da raiz 

Entre os agentes associados a esse padrão estão Macrophomina phaseolina, espécies de Fusarium, Phytophthora sojae e Rhizoctonia solani. 

Biologia e condições favoráveis 

M. phaseolina é um fungo necrotrófico que infecta com maior intensidade plantas submetidas a estresse. Sua principal estrutura de resistência são os microescleródios, que podem sobreviver no solo por vários anos, mesmo na ausência de hospedeiro.  

O fungo coloniza as raízes e a base da haste, e os microescleródios conferem aos tecidos o aspecto acinzentado que dá nome à podridão de carvão da raiz. 

Temperaturas elevadas, na faixa de 30 °C a 35 °C, associadas à baixa umidade do solo, favorecem a doença.Por isso, os sintomas se tornam mais evidentes após o florescimento, em períodos de déficit hídrico, como os veranicos.  

Plantas com sistema radicular superficial, em áreas com camada compactada (pé de grade), são mais vulneráveis.  

Sintomas diagnósticos da podridão de carvão da raiz 

Na parte aérea, as folhas tornam-se inicialmente cloróticas, secam, adquirem coloração marrom e permanecem aderidas aos pecíolos. As raízes apresentam coloração cinza, e a epiderme se destaca com facilidade, expondo microescleródios negros nos tecidos logo abaixo.  

Os tecidos internos da base da haste também podem apresentar coloração acinzentada, com microescleródios visíveis como pontos negros. 

No diagnóstico diferencial, P. sojae causa apodrecimento marrom-escuro que circunda a haste e progride de baixo para cima a partir da linha do solo. R. solani, por sua vez, provoca podridão castanha na base da haste, e o córtex da raiz se solta, expondo um lenho branco a castanho-claro. 

Já a podridão-vermelha-da-raiz provoca uma lesão avermelhada na raiz principal, logo abaixo do nível do solo, enquanto o lenho da haste adquire coloração castanho-clara. 

Outros agentes associados à morte em reboleira 

Além da Macrophomina phaseolina, outros patógenos de solo também podem gerar o padrão de reboleira. Cada um deles está associado a condições ambientais bem distintas. 

Rhizoctonia solani 

R. solani é um dos agentes clássicos desse padrão: nas publicações da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), a doença aparece como “tombamento e morte em reboleira de Rhizoctonia“. 
Após a floração, surge uma podridão aquosa de coloração castanha na haste, próxima ao nível do solo. O sistema radicular escurece, e o córtex se solta com facilidade, expondo um lenho firme de coloração branca a castanho-clara.  

As plantas morrem em grupos, com as folhas presas voltadas para baixo. A doença é observada com maior frequência em áreas recém-abertas e é favorecida por temperaturas amenas em anos chuvosos. 

Fusarium spp. (podridão-vermelha-da-raiz) 

No Brasil, a podridão-vermelha-da-raiz (PVR) está associada a três espécies: Fusarium brasiliense, F. tucumaniae e F. crassistipitatum.  

A infecção começa com uma mancha avermelhada na raiz principal, geralmente de um a dois centímetros abaixo do nível do solo, que evolui para coloração castanho-avermelhada a quase negra. O lenho da haste, acima do nível do solo, adquire coloração castanho-clara. 

Na parte aérea, o sintoma típico é a folha “carijó”, com amarelecimento e necrose entre as nervuras, que costuma surgir próximo ao florescimento. 

A doença é mais severa em solos mal drenados e compactados, com temperatura ótima entre 22 °C e 24 °C. Acima de 30 °C, a expressão dos sintomas é limitada, ao contrário do que ocorre com a podridão de carvão da raiz.  

Phytophthora sojae 

Phytophthora sojae causa apodrecimento de coloração marrom-escura que circunda a haste e progride de baixo para cima a partir da linha do solo, podendo atingir vários nós. Internamente, o córtex e os tecidos vasculares escurecem. As folhas amarelecem, secam e permanecem presas à haste. 

A doença é favorecida pela elevada umidade do solo, e áreas compactadas ou mal drenadas intensificam a podridão. No campo, as reboleiras tendem a surgir nas partes mais baixas do talhão, onde a água se acumula. 

Entre as medidas de controle, destacam-se a melhoria da drenagem e o uso de cultivares resistentes. No Brasil, genes como Rps1a, Rps1b, Rps1c, Rps1k, Rps3a e Rps8 apresentam boa resposta à maioria das populações do patógeno. É recomendável verificar essa informação na descrição da cultivar. 

Como manejar a morte em reboleira 

Como o padrão de reboleira pode ter diferentes agentes causais, o manejo assertivo combina ajustes na correção do solo, na irrigação, na rotação de culturas e no tratamento de sementes. Todas as decisões devem ser orientadas pelo diagnóstico correto do patógeno predominante na área. 

Manejo do solo e da irrigação 

Algumas práticas ajudam a reduzir a pressão dos principais agentes envolvidos na reboleira: 

  • Escarificação ou subsolagem em pontos de compactação, favorecendo o aprofundamento das raízes e reduzindo o estresse hídrico que predispõe as plantas à M. phaseolina. 
  • Melhoria das condições de drenagem, eliminando pontos de encharcamento que favorecem P. sojae, a podridão-vermelha-da-raiz e R. solani. 
  • Irrigação suplementar, em áreas irrigadas, para reduzir o déficit hídrico nos períodos de veranico. 
  • Observação do ZARC (Zoneamento Agrícola de Risco Climático) na definição da época de semeadura, reduzindo a probabilidade de déficit hídrico na fase reprodutiva. 

Rotação de culturas e redução do inóculo 

A rotação de culturas tem efeito limitado sobre M. phaseolina, já que o fungo infecta mais de 500 espécies vegetais, entre elas milho, sorgo e algodão. 

 Para a podridão-vermelha-da-raiz, a Embrapa também aponta baixa eficiência da rotação com milho e da cobertura com milheto.  

Nas áreas com histórico de Rhizoctonia solani , a rotação com espécies não hospedeiras segue entre as medidas indicadas. 

A manutenção da palhada sobre o solo, no sistema de semeadura direta, reduz o estresse hídrico das plantas e, com isso, a predisposição ao ataque de M. phaseolina. 

Plântulas de soja em linhas sobre palhada em sistema de plantio direto

Tratamento de sementes e biológicos 

O tratamento de sementes com Trichoderma favorece uma colonização radicular precoce, processo já documentado como redutor da severidade de M. phaseolina. 

Espécies de Bacillus também apresentam atividade antagonista sobre M. phaseolina, com resultados variáveis em condições de campo. 

Por fim, a escolha de cultivares tolerantes é uma ferramenta relevante. É recomendável verificar o desempenho dos materiais em ensaios regionais conduzidos em áreas com histórico de morte em reboleira. 

A morte em reboleira na soja é, antes de tudo, um sinal de alerta que exige investigação. Não há uma resposta padrão para todos os casos. 

Reconhecer o padrão no campo é apenas o primeiro passo: o diagnóstico correto do agente predominante, seja Macrophomina spp., Fusarium spp., Phytophthora spp. ou Rhizoctonia spp., é o que realmente define qual conjunto de práticas vai proteger a lavoura nas próximas safras. 

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Perguntas frequentes 

1. Morte em reboleira é o nome de uma doença específica? 

Não. É um padrão de distribuição das plantas mortas no campo, em manchas circulares ou elípticas. Diferentes agentes podem causar esse padrão, como Rhizoctonia solani, Macrophomina phaseolina, Fusarium spp. (podridão-vermelha-da-raiz) e Phytophthora sojae. 

2. Como diferenciar qual patógeno está causando a reboleira sem laboratório? 

Alguns sinais ajudam na triagem. Raízes acinzentadas com microescleródios negros indicam Macrophomina. Lesão avermelhada na raiz principal, logo abaixo do solo, sugere Fusarium. Apodrecimento marrom-escuro que sobe pela haste a partir do solo aponta para Phytophthora. Córtex da raiz que se solta, expondo lenho branco, é típico de Rhizoctonia. Em caso de dúvida, a confirmação laboratorial é o caminho mais confiável. 

3. Por que a reboleira reaparece sempre nos mesmos pontos do talhão? 

Porque os patógenos de solo se concentram em focos de inóculo ligados a fatores como compactação, má drenagem ou ausência de rotação de culturas. Sem corrigir essas condições, o inóculo permanece concentrado no mesmo local, safra após safra. 

4. Solo encharcado ou solo seco favorece mais a reboleira? 

Depende do agente. Macrophomina é favorecida por calor e déficit hídrico (veranico). Phytophthora e Fusarium são favorecidos por solo úmido, compactado ou mal drenado, e Rhizoctonia, por temperaturas amenas em anos chuvosos. Por isso, o diagnóstico correto do agente é essencial antes de definir a estratégia. 

5. Existe cultivar resistente para todos os agentes da reboleira? 

Não de forma unificada. Para Phytophthora sojae, existem genes de resistência como Rps1c e Rps1k, informados na descrição da cultivar. Para os demais agentes, a reação varia entre cultivares, e é recomendável verificar o desempenho em ensaios regionais.