21/05/2026

Mercado e safra

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21/05/2026

Geada, seca e El Niño: a combinação que ameaça o milho safrinha 2026 

Massa de ar polar avança sobre o Sul enquanto El Niño se aproxima, colocando 33 mil hectares do Paraná em alerta máximo e acendendo um sinal amarelo para toda a reta final da segunda safra no Brasil ...

Geada, seca e El Niño: essa é a combinação que o produtor de milho safrinha do Sul do Brasil enfrenta em maio de 2026. Na semana do dia 11, uma massa de ar polar avançou com força sobre o Paraná, Santa Catarina, sul de São Paulo e Mato Grosso do Sul, elevando o risco de geada a níveis críticos nas áreas de maior altitude. O momento não poderia ser mais inoportuno: segundo o Deral, apenas no núcleo de Ponta Grossa são 33 mil hectares diretamente expostos, com 25% da área em plena floração e 70% em frutificação, duas das fases mais vulneráveis do ciclo da cultura. 

O que torna o cenário ainda mais grave é o que veio antes do frio. Abril foi um mês de estiagem nas principais regiões produtoras, e as plantas chegaram à chegada da massa polar já fragilizadas. 

O estresse hídrico acumulado ao longo de semanas compromete o sistema radicular, reduz a capacidade de absorção de nutrientes e deixa a planta sem reservas para sustentar processos fisiológicos críticos. Quando a temperatura despenca sobre uma lavoura que já está em déficit, o dano deixa de ser simples e passa a ser cumulativo. É esse efeito combinado que os técnicos de campo mais temem neste momento. 

O que o frio faz com o milho por dentro 

Para entender a dimensão do risco, é preciso entender o que acontece fisiologicamente quando o milho enfrenta temperaturas próximas ou abaixo de zero em cada uma dessas fases. Os mecanismos são distintos, mas os resultados convergem para o mesmo lugar: perda de produtividade que muitas vezes só se torna visível quando já é tarde demais para agir. 

Na floração, o pólen perde viabilidade rapidamente abaixo de 10°C e o estilo-estigma, o “cabelo do milho”, é extremamente sensível ao congelamento. Falhas nesse processo aparecem semanas depois na forma de espigas com fileiras irregulares e grãos ausentes, um dano irreversível que o produtor frequentemente subestima porque a planta continua de pé e aparentemente viva. 

Na frutificação, o gelo destrói tecidos celulares em desenvolvimento e interrompe a translocação de assimilados para o endosperma. O resultado é redução direta no peso dos grãos, queda no peso hectolitro e descontos na comercialização. Quanto mais precoce for o estádio dentro dessa fase, maior o impacto potencial. 

Em ambos os casos, vale um alerta importante: o dano real de uma geada não deve ser avaliado nos primeiros dias após o evento. A lavoura pode parecer recuperável enquanto os tecidos internos já estão comprometidos. A recomendação técnica é aguardar de 5 a 7 dias antes de qualquer decisão de manejo ou abandono de talhão. 

Abril seco e a herança que o frio encontrou 

Para compreender o cenário atual em toda a sua extensão, é necessário olhar um mês para trás. Em abril, o acumulado de chuvas ficou abaixo do registrado em 2025 em Goiás, Minas Gerais, Paraná e São Paulo, regiões que concentram boa parte da produção de milho safrinha do país. O estresse hídrico nesse período afetou lavouras em diferentes estádios, comprometendo desde a definição do número de grãos por espiga até o desenvolvimento radicular das plantas mais tardias. 

A consequência direta desse déficit é que o milho que agora enfrenta a geada não é o mesmo que enfrentaria essa adversidade em condições normais. Uma planta bem hidratada tem mecanismos de tolerância ao frio significativamente maiores do que uma planta já sob estresse. 

A temperatura de congelamento dos tecidos vegetais é influenciada pela concentração de solutos nas células, e plantas estressadas têm menor capacidade de ajuste osmótico. Em termos práticos: o frio que seria moderado para uma lavoura saudável pode ser devastador para uma lavoura que chegou fragilizada. 

El Niño no horizonte e o que isso muda para o restante do ano 

Se a geada representa o problema imediato e localizado, o comportamento climático esperado para os próximos meses coloca a safrinha 2026 diante de um desafio de escala muito maior. A NOAA aponta 61% de probabilidade de transição para El Niño entre maio e julho, com persistência do fenômeno até o fim de 2026. Os mapas para o restante de maio já indicam alta variabilidade nas chuvas nas principais regiões produtoras, sem o padrão regular que o milho em fase de enchimento de grãos precisa. 

Historicamente, anos de El Niño no Brasil estão associados a um conjunto de efeitos que impactam diretamente a safrinha: 

  • Veranicos mais intensos e prolongados no Centro-Oeste durante o período crítico de maio e junho 
  • Aumento de chuvas no Sul em momentos que nem sempre coincidem com as demandas da cultura 
  • Maior instabilidade térmica, favorecendo tanto geadas tardias quanto ondas de calor que aceleram a maturação de forma forçada 
  • Pressão elevada de doenças foliares, especialmente em regiões com maior umidade relativa noturna 

Para o planejamento da lavoura, isso significa que a variabilidade climática que já estava alta em abril tende a se intensificar nos próximos meses, com reflexos tanto no que resta da safrinha 2026 quanto no início do planejamento da safra 2026/27. 

O que fazer agora: monitoramento antes de qualquer decisão 

Diante de um evento de geada sobre lavouras em floração e frutificação, a primeira recomendação dos especialistas é resistir à pressa. A avaliação do dano real deve ser feita entre 5 e 7 dias após o evento, quando os tecidos danificados se tornam claramente identificáveis. O produtor que decide abandonar ou replanejar a lavoura antes desse prazo corre o risco de superestimar o dano em talhões que ainda têm potencial de recuperação parcial. 

A avaliação de campo deve incluir o corte longitudinal do colmo para verificar se o ponto de crescimento foi afetado. Em plantas ainda jovens, esse ponto está protegido próximo à base, o que pode garantir rebrota mesmo após danos severos na parte aérea. Para orientar as decisões seguintes, algumas ferramentas são aliadas diretas: 

  • ZARC (Zoneamento Agrícola de Risco Climático): para cruzar o histórico da região com o evento atual e dimensionar se o dano está dentro da faixa esperada de risco para aquela janela de plantio 
  • Apps de monitoramento climático (Climatempo, Simepar, Inmet): para acompanhar as próximas janelas de frio e planejar aplicações de nutrição foliar pós-estresse no momento correto 
  • Assistência técnica presencial: indispensável antes de qualquer decisão de abandono de lavoura ou antecipação de colheita 

O recado para 2027 

A conjuntura de 2026 entrega um conjunto de lições que vai além da safra atual. A combinação de abril seco, geada em maio sobre lavouras em fases críticas e El Niño estruturando o clima do segundo semestre é, em grande medida, o resultado de plantios realizados no limite ou fora da janela recomendada. Quanto mais tarde o milho safrinha é plantado, maior a probabilidade de que esteja em floração ou frutificação justamente no período de maior risco climático de maio e junho no Sul e Centro-Oeste. 

Para o produtor que ainda tem lavoura em pé neste momento, os próximos 30 dias são decisivos. Monitorar os estádios fenológicos de perto, registrar as condições de campo e tomar decisões com base em avaliações técnicas concretas é o que ainda pode fazer diferença no resultado final desta safra. Para quem está planejando a próxima, o recado do clima em 2026 é claro: janela de plantio não é sugestão. 

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